O detetive de arte holandês Arthur Brand localizou o quadro “Retrato de uma Jovem”, de Toon Kelder, levado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e mantido por oito décadas na casa de descendentes de um colaborador do regime, marcando a recuperação mais relevante de sua carreira.
O resgate do “Retrato de uma Jovem”
A descoberta ocorreu quando um descendente de Hendrik Seyffardt, general que chefiou a Legião de Voluntários Holandeses pró-Hitler, procurou Brand. O informante relatou que a pintura estava pendurada no corredor da neta do militar, em território holandês, sem que a família soubesse do histórico de espólio nazista.
Brand confirmou a procedência da obra ao identificar, no verso do cavalete, etiqueta da galeria de Jacques Goudstikker e o número 92, correspondentes a um leilão de 1940, quando centenas de peças do marchand judeu foram negociadas pelos ocupantes alemães. O quadro, avaliado em cifras não divulgadas, integra agora a lista de itens restituídos que já inclui telas de Picasso e Van Gogh, além das esculturas conhecidas como “Os Cavalos de Hitler”.
Sem aparato policial oficial, Brand mediu riscos legais e diplomáticos: como os prazos de reivindicação judicial expiraram, a devolução dependia da decisão voluntária dos herdeiros Seyffardt. Após debate interno relatado pelo jornal Dutch Daily, a família concordou em entregar a peça, abrindo caminho para negociações de restituição com os descendentes de Goudstikker.
Origem e trajetória da obra: coleção Goudstikker e saque nazista
Jacques Goudstikker, o maior marchand da Holanda nos anos 1930, possuía acervo superior a 1 400 obras. Em maio de 1940, o comerciante morreu fugindo da invasão alemã pelo Canal da Mancha; semanas depois, representantes de Hermann Göring confiscaram a coleção. Um inventário minucioso—preservado pela família—lista cada item, incluindo o Retrato de uma Jovem.
Após a guerra, governos aliados recuperaram parte do espólio, mas centenas de peças dispersaram-se em transações privadas ou permaneceram em coleções silenciosas. O leilão de 29 de julho de 1940, em Amsterdã, marcou o provável ponto de entrada da pintura na posse de Seyffardt. Documentos daquele evento registram o lote n.º 92 exatamente como a obra recém-resgatada.
Desde 1998, quando a Washington Conference estabeleceu diretrizes internacionais para arte saqueada, os herdeiros Goudstikker recuperaram mais de 200 peças. Contudo, a legislação holandesa limita ações judiciais a prazos prescricionais; por isso, a colaboração de possuidores de boa-fé, como no caso atual, tornou-se fundamental.

Método investigativo de Arthur Brand
Brand, de 54 anos, atua como consultor de arte para sustentar as próprias buscas. Investigações partem de denúncias anônimas, cruzamento de catálogos de leilão e, sobretudo, manutenção de uma rede de contatos no submundo do tráfico de arte. Em entrevista ao The Guardian, declarou que “o circuito ilegal é restrito; obras funcionam como moeda de troca”. Para preservá-las, ele estabelece relações de confiança com informantes e evita exposição pública até confirmar autenticidade e localização.
O procedimento inclui: 1) análise de pigmentos e suportes conforme catálogos raisonné; 2) verificação de etiquetas, números de inventário e lacres de transporte; 3) consulta a bases de dados como Art Loss Register; e 4) negociação confidencial para retirada segura. No caso Kelder, a etiqueta Goudstikker e o número 92 bastaram para ligar a obra ao arquivo histórico, dispensando perícia laboratorial inicial.
Precedentes notáveis na carreira do detetive
Entre os sucessos anteriores, destaque para o resgate de “Buste de Femme” (1983), avaliado em US$ 25 milhões. A tela de Pablo Picasso fora subtraída do iate de um xeque árabe na Riviera Francesa em 1999 e recuperada por Brand em 2019. Em 2015, o holandês rastreou as esculturas em bronze “Os Cavalos de Hitler”, desaparecidas desde a queda do Terceiro Reich, localizadas em um galpão na Alemanha.
Outro caso curioso envolveu o anel de formatura de Oscar Wilde, furtado do Magdalen College, Oxford, em 2002. Brand encontrou a joia em 2018, comprovando a autenticidade por meio de carta do próprio escritor que descrevia a inscrição externa “Gift of Love”.
Conclusão técnica
A devolução do “Retrato de uma Jovem” reforça a tendência de colaborações extrajudiciais na restituição de arte saqueada, especialmente quando barreiras legais impedem ações coercitivas. O quadro deve ser formalmente entregue a representantes da família Goudstikker nas próximas semanas, abrindo possibilidade de exposição pública ou integração definitiva ao acervo familiar. Para Arthur Brand, o êxito consolida metodologia baseada em inteligência de campo, pesquisa documental e negociação confidencial, modelo que tende a ganhar relevância à medida que outras obras ainda desaparecidas—estimadas em mais de 100 000 peças só do período nazista—continuam surgindo em coleções particulares ao redor do mundo.



