Ambipar comunicou, em 15 de maio de 2026, novo adiamento na publicação dos resultados do 1T26, 4T25 e 3T25, prolongando a falta de transparência corporativa que cerca a companhia desde o pedido de recuperação judicial e intensificando questionamentos de investidores, credores e reguladores sobre o destino de R$ 4,7 bilhões que constavam em caixa poucos meses antes da crise de liquidez.
A escalada dos atrasos e o impacto sobre investidores
O anúncio desta quinta-feira representa a terceira postergação consecutiva da divulgação do balanço referente ao 3T25 e incorpora ao passivo informacional os demonstrativos do 4T25 e do 1T26. Segundo a companhia, o avanço do processo de recuperação judicial inviabilizou a conclusão dos trabalhos contábeis dentro do prazo legal. O mercado, entretanto, avalia que a sinalização de fragilidade operacional e a ausência de dados atualizados elevam o risco percebido nos títulos de dívida e nas ações AMBP3, negociadas na B3.
Até junho de 2025, a Ambipar reportava R$ 4,7 bilhões em disponibilidade de caixa, volume considerado suficiente para cobrir múltiplas vezes o endividamento de curto prazo, estimado em R$ 616 milhões. Contudo, em outubro do mesmo ano, a empresa solicitou proteção judicial alegando crise severa de liquidez. Desde então, a falta de demonstrações financeiras impede a recomposição da confiança de analistas e potenciais financiadores.
Pontos críticos levantados pela CVM
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) manifestou preocupação formal sobre o nível de transparência de uma companhia listada que omite balanços por tantos trimestres consecutivos. Em petição à Justiça, o órgão requisitou acesso irrestrito aos autos da recuperação judicial, inclusive documentos protegidos por sigilo, argumentando que as informações divulgadas até o momento “não conversam entre si”.
A principal incoerência diz respeito ao passivo informado. No início das negociações com credores, a Ambipar estimava dívidas totais de curto prazo em R$ 616 milhões; entretanto, no pedido protocolado em tribunal, o valor inscrito saltou para cerca de R$ 10,5 bilhões. A disparidade reforça a necessidade de esclarecimento sobre a real estrutura de capital, a origem das obrigações vencidas e as razões que consumiram um caixa antes rotulado como robusto.
Sem os relatórios trimestrais, a CVM carece de base contábil confiável para aferir potenciais infrações às regras de divulgação obrigatória e de governança corporativa. Investidores minoritários, por sua vez, permanecem sem parâmetros para estimar geração de caixa, alavancagem e perspectiva de recuperação.
Reestruturação interna e desdobramentos judiciais
No front operacional, a companhia iniciou ampla reformulação do quadro executivo. Em janeiro de 2026, Ricardo Rosanova Garcia deixou o cargo de diretor financeiro menos de quatro meses após substituir João Arruda, apontado pela própria empresa como peça central na deterioração financeira. A troca foi acompanhada por demissão em massa de 35 diretores e gerentes ligados a jurídico, controladoria, relações com investidores e gestão de riscos.

Paralelamente, a Ambipar informou a suspensão do pagamento de juros relativos à quinta emissão de debêntures, citando impedimento legal oriundo da recuperação judicial. O compromisso, emitido antes da RJ, passará a obedecer ao plano a ser votado pelos credores e homologado pelo Judiciário. A medida afeta diretamente detentores de dívida, que já negociam títulos com desconto expressivo no mercado secundário.
No âmbito processual, o juiz responsável fixou prazos para apresentação de plano de reestruturação e convocação da assembleia de credores. A empresa alega que a finalização dos balanços atrasados é condição para embasar projeções financeiras exigidas pelo tribunal, mas não estabeleceu nova data pública para a entrega desses demonstrativos.
Conclusão técnica
A postergação simultânea de três balanços coloca a Ambipar em situação incomum entre companhias listadas e amplia o escrutínio de órgãos reguladores, investidores e autoridades judiciais. Enquanto não houver divulgação de números consistentes, permanece indefinido:
- o verdadeiro nível de liquidez e endividamento;
- o fluxo de caixa projetado para sustentar as operações sob recuperação judicial;
- a viabilidade do plano que será submetido aos credores.
Os próximos marcos incluem a entrega obrigatória dos demonstrativos financeiros pendentes, a apresentação do plano de recuperação e a deliberação em assembleia de credores. A transparência sobre a utilização do caixa bilionário divulgado em 2025 será determinante para restaurar a credibilidade da companhia e definir seu acesso futuro a capital.



