Consumidor retraído, juros reais elevados e endividamento recorde das famílias provocaram queda generalizada nos resultados do varejo brasileiro no 1T26, segundo relatório do BTG Pactual. O banco avalia que o cenário deixou de ser conjuntural e passou a refletir deterioração estrutural da capacidade de compra, embora empresas focadas em categorias defensivas e modelos de negócio premium tenham conseguido ampliar vendas e margens.
Diagnóstico macroeconômico: juros, endividamento e inflação comprimem demanda
O documento sustenta que o poder de consumo das famílias segue impactado por três vetores principais:
- Taxa Selic real acima de 6%, restringindo crédito e elevando o custo do financiamento ao consumidor.
- Endividamento das famílias em torno de 49% da renda, nível historicamente alto que limita novas compras parceladas.
- Inflação acumulada de aproximadamente 20% nos três anos anteriores, resultando em perda de renda disponível mesmo com reposições salariais recentes.
De acordo com o BTG Pactual, a combinação desses fatores deslocou a crise do varejo de uma instância cíclica para um problema estrutural. O banco alerta que, sem redução consistente dos juros reais e sem desalavancagem das famílias, o setor tende a exibir crescimento modesto e dependente de promoções agressivas.
Farmácias, fitness e marcas premium mostram resiliência
Entre as companhias avaliadas, três se destacaram positivamente:
Raia Drogasil (RADL3) registrou crescimento de 14,3% nas vendas mesmas lojas (SSS), além de expansão de margem e forte geração de caixa. O banco sublinha a continuidade da alta nas categorias de genéricos, OTC e medicamentos baseados em GLP-1, que sustentam ticket médio maior.
Smart Fit (SMFT3) manteve trajetória de crescimento robusto de receita, com EBITDA acima das estimativas. O relatório enfatiza o avanço estratégico do TotalPass, programa corporativo que já representa parcela crescente do ecossistema de receitas e amplia a penetração das academias em mercados secundários.
Track&Field (TFCO4) consolidou performance consistente, sustentada pelo modelo de expansão via franquias e pela atuação no segmento premium de vestuário esportivo. A companhia reportou elevação de margem operacional, atestando capacidade de repasse de custos mesmo em ambiente de renda comprimida.

Alimentar sofre com deflação; vestuário apresenta resultados mistos
No varejo alimentar, a inflação negativa em itens essenciais reduziu o crescimento nominal das receitas. O Assaí (ASAI3) mostrou retração de 0,9% em SSS, mesmo com volumes estáveis, indicando pressão intensa sobre preços. Já o Grupo Mateus (GMAT3) alcançou avanço de 12,9% nas vendas impulsionado pela incorporação do Novo Atacarejo; contudo, a margem EBITDA ficou abaixo do projetado pelo banco, refletindo maior competição e custos de integração.
No segmento de moda, os resultados divergiram. A Lojas Renner (LREN3) conseguiu recuperar margem bruta graças a melhor gestão de estoques e mix de produtos. Por outro lado, a Vivara (VIVA3) exibiu desempenho considerado misto: embora a receita tenha crescido de forma robusta e a margem bruta tenha avançado, o aumento de despesas comerciais e a resistência do consumidor a reajustes na coleção Life sinalizam desafios à frente.
Perspectivas: trajetória dos juros ditará ritmo de recuperação
O BTG Pactual reforça que a evolução do varejo brasileiro em 2026 dependerá fundamentalmente de:
- Sustentação do ciclo de cortes na Selic, capaz de reduzir o custo do crédito e destravar consumo de bens duráveis.
- Melhora nas condições de financiamento, inclusive alongamento de prazos e menores exigências de garantias para pessoa física.
- Desalavancagem gradual das famílias, com possível queda da inadimplência e retomada da confiança do consumidor.
Enquanto esse realinhamento macroeconômico não se concretiza, o banco mantém preferência por companhias com crescimento estrutural, baixo nível de alavancagem e execução comprovada, particularmente nos nichos de farmácias, fitness e marcas premium. Segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico, como eletroeletrônicos ou moda de massa, continuam sob recomendação cautelosa.
Conclusão Técnica
O primeiro trimestre de 2026 consolidou a transição do varejo brasileiro para um contexto de restrição estrutural de demanda, originada por juros elevados, endividamento persistente e erosão do poder de compra. Mesmo assim, modelos de negócio focados em saúde, bem-estar e posicionamento premium mostraram capacidade de crescer e ganhar mercado. A normalização do setor dependerá da convergência dos juros reais para patamares historicamente mais baixos e da requalificação do balanço das famílias. Até lá, empresas com proposta de valor defensiva e sólido histórico operacional tendem a continuar na vanguarda dos resultados.



