O Itaú BBA projeta que a Sabesp aumentará o retorno ao acionista de 2,5% em 2025 para 7,8% em 2029, impulsionada por forte geração de caixa após o pico do ciclo de investimentos voltado à universalização do saneamento em São Paulo. A estimativa inclui excesso de capital superior a 30% do valor de mercado da companhia até 2030, cenário que poderá favorecer novos projetos, consolidação setorial e distribuição de proventos mais robusta.
Investimentos atuais e transição para acúmulo de caixa
O plano de capex da Sabesp prevê cerca de R$ 100 bilhões em desembolsos até 2029, concentrados na expansão de redes, estações de tratamento e melhoria de eficiência operacional. Segundo os analistas Fillipe Andrade e Lucas Guimarães, do Itaú BBA, esse montante sustenta as metas de universalização impostas pelo marco legal do saneamento, mas tende a desacelerar gradualmente após 2027.
Com a desaceleração do capex, a companhia deve manter a mesma base tarifária regulada, porém sobre um parque de ativos ampliado. A combinação de EBITDA crescente e redução de investimentos sinaliza aumento expressivo no fluxo de caixa livre a partir de 2028. O banco estima R$ 14,3 bilhões de FCFE em 2030, comparados a patamares praticamente nulos no início do plano.
Como reflexo direto, o BBA revisou o preço-alvo das ações SBSP3 para R$ 34, representando alta potencial próxima de 20% sobre o fechamento de 27 de maio.
Dam Reservoir Framework: entrada de caixa versus saída de investimentos
Para ilustrar a dinâmica financeira, o relatório introduz o Dam Reservoir Framework — analogia em que a entrada de água equivale ao fluxo de caixa operacional regulado e a saída corresponde ao capex. O ponto crítico ocorre quando a entrada passa a superar a saída, formando um “reservatório” de recursos.
De acordo com o modelo, a virada deve ocorrer no fim desta década. A partir daí, a Sabesp pode acumular mais de R$ 20 bilhões em lucros retidos e caixa líquido, mesmo considerando:
- Payout crescente: 50% em 2026-2027, 75% em 2028-2029 e 100% a partir de 2030.
- Manutenção de alavancagem conservadora.
- Execução total do plano de investimentos já anunciado.
O banco argumenta que o consenso de mercado ainda foca em múltiplos EV/RAB e risco regulatório, subestimando a velocidade de formação desse reservatório financeiro.
Universaliza SP Fase 2: primeiro teste da capacidade de alocação de capital
O Universaliza SP Fase 2 (URAE2) deve ir a leilão no segundo semestre de 2026, oferecendo ao setor cerca de R$ 50 bilhões em capex e opex. O Itaú BBA enxerga o projeto como principal gatilho da tese de consolidação, com potencial de adicionar 100 pontos-base à TIR regulatória e gerar até R$ 13 bilhões em valor presente para a companhia.

Entre as vantagens competitivas destacadas estão:
- Escala operacional já consolidada no Estado de São Paulo;
- Experiência regulatória com a Arsesp;
- Capacidade de execução testada em obras de grande porte.
Em contrapartida, os novos blocos contam com maior proporção de consumidores de baixa renda e densidade populacional reduzida, o que pressiona a rentabilidade. O modelo híbrido de tarifa + subsídio será determinante para viabilidade econômica.
Riscos regulatórios e possíveis impactos na remuneração
O relatório dedica espaço relevante a dois vetores de risco:
- Reforma tributária — a transição para IBS/CBS pode gerar créditos fiscais substanciais. O impacto será neutro a levemente positivo se tais créditos forem refletidos tanto na Base Regulatória de Ativos (RAB) quanto nas tarifas. Caso contrário, haveria erosão de valor para o acionista.
- Mudança do modelo de reconhecimento de investimentos — a migração do VOC para DRC significará que 85-90% do capex futuro será confrontado com custos de referência de mercado. Gastos acima do benchmark podem ficar fora da RAB. Ainda assim, cerca de R$ 49 bilhões já contratados permanecerão sob a regra antiga, reduzindo o risco imediato.
Indicadores projetados: dividendos, RAB e geração de valor
Nos cenários do Itaú BBA, a RAB líquida deve saltar de R$ 108,4 bilhões em 2026 para R$ 192,8 bilhões em 2030, refletindo a conclusão do ciclo de universalização. Em paralelo, o dividend yield projeta expansão das atuais faixas de 2,5% para até 7,8% no final de 2029, mais que triplicando a remuneração ao investidor.
O cenário assume manutenção de rating saudável, custo médio da dívida estável e repasses tarifários compatíveis com a inflação e com a recuperação dos investimentos reconhecidos pela Arsesp.
Conclusão técnica
As estimativas do Itaú BBA revelam que o valor potencial embutido na Sabesp está menos em seus ativos operacionais atuais e mais na capacidade de gerar capital excedente após 2028. A materialização da tese depende de três fatores principais: execução disciplinada do capex, vitória em concessões com retorno adequado (URAE2) e tratamento regulatório favorável para créditos fiscais e reconhecimento de investimentos. O acompanhamento desses vetores indicará se o previsto triplo de dividendos até 2029 se confirmará e se a companhia consolidará posição como líder ofensiva no setor de saneamento brasileiro.



