O anúncio de tarifas adicionais pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, divulgado nesta terça-feira (2), provocou reação moderada nos mercados: o Ibovespa avançava 1,32% às 12h30, sustentado pela valorização de Vale (VALE3) e CSN (CSNA3), cujos papéis subiam 3,19% e 8,55%, respectivamente.
Escopo das novas tarifas e principais exceções
O Departamento de Comércio norte-americano divulgou um relatório preliminar que classifica como “irracionais, discriminatórias ou restritivas” determinadas práticas comerciais brasileiras. A proposta prevê substituir parte da tarifa recíproca de 10% por uma alíquota de 25% sobre mercadorias selecionadas.
De acordo com cálculos do Goldman Sachs, a mudança elevaria a tarifa média incidente sobre produtos brasileiros de 9% para 13,8%. Entretanto, uma lista extensa de exceções — que inclui café, suco de laranja, carne bovina, minerais raros, fertilizantes, produtos farmacêuticos e peças para aeronaves — reduz substancialmente o alcance da medida.
Além das exceções, o presidente Donald Trump assinou decreto que corta a alíquota de importação para alguns derivativos de aço e alumínio de 25% para 15%, abrangendo equipamentos agrícolas e sistemas de climatização. Ao mesmo tempo, certos metais permanecem sujeitos a sobretaxa, criando um cenário de incentivos mistos para a indústria brasileira.
Reação dos mercados e desempenho setorial
Mesmo com o endurecimento da retórica comercial, investidores avaliaram que a exposição direta das companhias listadas é baixa. As exportações brasileiras para os EUA corresponderam a apenas 2% do PIB em 2025, contra 29% do PIB mexicano no mesmo período, lembram analistas.
Esse quadro favoreceu ativos ligados ao minério de ferro, impulsionados também por alta da commodity no mercado internacional. Os destaques do pregão incluíam:
- CSN (CSNA3): +8,55%
- Usiminas (USIM5): +6,04%
- CSN Mineração (CMIN3): +4,85%
- Gerdau (GGBR4): +4,67%
- Metalúrgica Gerdau (GOAU4): +4,30%
Segundo Fábio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, a exclusão de petróleo, minério de ferro e produtos ligados à aviação da lista tarifária preserva a rentabilidade de grandes exportadoras brasileiras, notadamente a Vale.

Avaliação econômica e próximos passos regulatórios
O processo tarifário ainda inclui etapa de consulta pública nos EUA, na qual setores afetados poderão apresentar argumentos contrários ou pleitear novas exceções. Até a conclusão desse ciclo, não há data definitiva para a vigência das cobranças.
O governo brasileiro convocou reunião de emergência para avaliar contramedidas. Em nota, a Ativa Investimentos ressaltou que a política comercial norte-americana tem se mostrado “errática e altamente negociável”, o que reduz a probabilidade de aplicação integral das tarifas. A corretora também destacou o esforço dos EUA para diminuir seu déficit comercial, fator que sustenta o endurecimento das negociações.
Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, o efeito macroeconômico dependerá da versão final do pacote, mas a exclusão de “produtos-chave na pauta de exportação” mitiga impactos imediatos sobre o saldo comercial brasileiro.
Conclusão Técnica
Embora o anúncio represente mais um capítulo nas tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, a combinação de exceções extensas, processo de consulta pública e pequena participação das exportações brasileiras no PIB suavizou a reação do mercado acionário doméstico. A performance positiva de empresas de mineração e siderurgia indica expectativa de que a medida, se confirmada, terá alcance limitado. Nas próximas semanas, investidores monitorarão: (1) a tramitação das consultas nos EUA, (2) eventuais contra-argumentos do governo brasileiro em fóruns bilaterais e multilaterais e (3) a evolução dos preços internacionais do minério de ferro, fator crítico para a receita de Vale, CSN e congêneres.



