Empresas latino-americanas continuarão recebendo avaliações mais baixas do que as dos Estados Unidos até que ampliem a geração de receita em dólar, afirmaram gestores de venture capital durante o Web Summit Rio 2026, destacando a internacionalização como único caminho capaz de neutralizar o chamado “risco Brasil”.
Avaliações comprimidas pela percepção de risco
Ao comentar os múltiplos de mercado, Marcello Gonçalves, cofundador da Domo Venture Capital, ressaltou que a diferença de valor entre companhias brasileiras e norte-americanas está diretamente atrelada ao ambiente político-econômico regional. Para o executivo, “é absolutamente natural” que negócios locais sejam precificados em patamares inferiores, pois o prêmio de risco embutido pelos investidores internacionais permanece elevado. Dados recentes de relatórios setoriais, citados no painel, mostram que o desconto médio de valuation chega a 40 % quando comparado a empresas equivalentes listadas na Nasdaq.
O histórico reforça a análise. De 2016 a 2025, o índice norte-americano S&P 500 acumulou alta de ≈130 %, enquanto o Ibovespa avançou pouco mais de ≈60 % em moeda local. Ajustado pelo câmbio, o retorno em dólar para o investidor foi ainda menor, criando um ciclo em que capitais de crescimento migram naturalmente para geografias percebidas como mais estáveis.
Internacionalização: receita em dólar como antídoto
Para mitigar o desconto, a solução apresentada pelos participantes é a expansão além das fronteiras nacionais. Segundo Gonçalves, empresas que “nascem globais” ou transformam parte relevante de suas vendas em moeda forte passam a refletir parâmetros de risco diferentes. A experiência de companhias como Brex, Wellhub (ex-Gympass) e Music AI ilustra o impacto: após abrirem operações nos EUA e na Europa, essas startups registraram rodadas subsequentes com valorizações de até 2,5 vezes quando comparadas ao período pré-internacionalização.
Marcelo Lima, sócio da Monashees, complementou que a cobrança do mercado mudou. “Uma década atrás, discutíamos se o venture capital era viável na América Latina; hoje a pergunta é em que prazo o modelo de negócios será exportável”. Ele observa que o ciclo de captação típica — rodada seed, Série A e Série B — já inclui questionamentos sobre a porcentagem da receita decorrente de clientes externos.
Maturidade do ecossistema e novos vetores de crescimento
O ecossistema regional percorreu três estágios, de acordo com Lima: (1) replicação de modelos norte-americanos, (2) foco em dores específicas da América Latina e (3) desenvolvimento de produtos exportáveis. A fase atual mescla experiência setorial com tecnologias emergentes, notadamente inteligência artificial, que reduz barreiras de entrada em mercados maduros. Pesquisa da Association for Private Capital Investment in Latin America (LAVCA) indica que 32 % das startups brasileiras fundadas após 2022 já nasceram com plano de atuação internacional.
Investidores apontam ainda um efeito de network: à medida que mais fundadores obtêm sucesso fora do país, a reciclagem de conhecimento acelera a curva de aprendizado das seguintes gerações. Programas de aceleração sediados em Miami, Lisboa e Madri passaram a registrar participação recorde de empreendedores brasileiros nos últimos dois anos.
Desafios práticos para a expansão global
Apesar do otimismo, o movimento não é isento de riscos operacionais. Izabel Gallera, sócia da Canary, destacou três gargalos recorrentes:

1. Distribuição – Acesso a canais de venda e relacionamento corporativo ainda exige presença física ou parcerias locais sólidas.
2. Força comercial qualificada – Contratações em mercados desenvolvidos pressionam margens, pois salários em dólar ou euro representam aumento de custos de até 60 % em relação à folha brasileira.
3. Captação de clientes – Diferenças regulatórias e culturais demandam ajuste fino de produto e mensagem, etapa que pode alongar o período de retorno sobre investimento.
Gallera acrescenta que avançar apenas para “aumentar o valuation” tende a fracassar. Estudos da consultoria McKinsey com 120 startups latino-americanas apontam que 70 % das iniciativas guiadas exclusivamente por necessidade de funding encerraram operações externas em menos de 24 meses.
Momento adequado e governança da expansão
Os gestores convergem na recomendação de validar primeiro o modelo de negócios em um mercado-âncora antes de pulverizar esforços em múltiplas geografias. Casos de benchmark indicam que o faturamento mínimo anual de US$ 10 milhões no mercado doméstico é parâmetro frequente para sustentar um plano de internacionalização. Além disso, o envolvimento direto dos fundadores é considerado crítico. “Não basta enviar um funcionário júnior para abrir uma operação e esperar que ela funcione sozinha”, frisou Lima.
Padrões de governança também evoluem. Investidores passaram a exigir conselhos consultivos com integrantes residentes no país-alvo, cláusulas de earn-out vinculadas à geração de receita estrangeira e KPIs específicos, como Monthly Recurring Revenue (MRR) em dólar e churn globalizado, para destravar tranches adicionais de capital.
Conclusão técnica
Enquanto a percepção de risco sistêmico mantiver um prêmio sobre ativos brasileiros, valera a lógica de múltiplos descontados. A única alavanca capaz de romper essa barreira, indicam os gestores, é a obtenção de receita recorrente em moeda forte por meio da expansão internacional planejada, capitalizada e acompanhada de governança adequada. Nos próximos trimestres, espera-se aumento no número de rodadas que condicionarão parte dos recursos à execução desse plano, sinalizando uma nova fase de maturidade para o ecossistema de inovação latino-americano.



