Fundos de crédito privado registraram captação negativa de R$ 40 bilhões em 2026, invertendo dois anos de ingressos líquidos e empurrando investidores para aplicações de altíssima liquidez e baixo risco, como Tesouro Selic, fundos atrelados ao CDI e CDBs de grandes bancos, segundo levantamento da Empiricus Research com 20 gestoras que administram cerca de R$ 1 trilhão em ativos.
Resgates se intensificam após performance abaixo do CDI
A onda de saques começou em março, quando a rentabilidade média dos fundos de crédito passou a ficar aquém do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), índice de referência da renda fixa. Até então, esses veículos vinham sendo percebidos como equivalentes a CDBs ou Tesouro Selic — aplicações com remuneração próxima ao CDI e mínima volatilidade. A surpresa negativa provocou migração acelerada: somente em maio, os resgates somaram R$ 25 bilhões, superando o recorde anterior de abril, de acordo com a pesquisa Perspectiva de Crédito, iniciada em setembro de 2024.
No acumulado de janeiro a maio, a indústria de fundos de crédito ficou com captação líquida negativa de R$ 40 bilhões. O volume destoa do fluxo observado em 2024 e 2025, quando o segmento liderou ingressos na indústria de fundos, beneficiado pela combinação de juros elevados e retorno superior ao CDI.
Destino dos recursos: preferência absoluta por liquidez imediata
Questionadas pela Empiricus sobre o destino do capital retirado, 88,2 % das gestoras indicaram ativos de liquidez diária e baixíssimo risco. Entre as respostas, 52,9 % mencionaram a alocação em Tesouro Selic e fundos referenciados ao CDI, enquanto 35,3 % apontaram CDBs, LCIs e LCAs emitidos por grandes bancos. Nenhuma gestora relatou fluxo relevante para produtos de maior volatilidade, como fundos multimercados, ações ou debêntures sem isenção fiscal.
O movimento sugere comportamento defensivo: investidores buscaram reproduzir nos novos ativos as mesmas características que atribuíam aos fundos de crédito antes das oscilações de preço iniciadas em março — liquidez imediata, spreads reduzidos e previsibilidade de retorno.
Recuperação parcial da performance e ajustes de portfólio das gestoras
Apesar da sangria nos resgates, 93 % dos fundos superaram o CDI em maio, indicando estabilização dos preços dos títulos privados na carteira. Gestores permanecem conservadores, mantendo caixa elevado para atender novos pedidos de saque sem a necessidade de liquidar debêntures em condições desfavoráveis.
A percepção de risco em debêntures com rating AA- ou superior migrou de neutra para levemente otimista em junho, segundo o estudo. Já papéis abaixo de grau de investimento continuam fora do radar. Nos títulos incentivados, os prêmios de risco melhoraram marginalmente, porém ainda aquém dos níveis considerados atrativos no início do ano.

As carteiras estão mais curtas, privilegiando vencimentos de curto prazo e carregos inferiores à média histórica. Essa postura reflete a avaliação de que a relação risco-retorno ainda não compensa ampliar a exposição em crédito privado tradicional neste momento.
Perspectivas para a liquidez secundária e impacto no spread de crédito
No mercado secundário, há expectativa de incremento no volume de negociações entre investidores institucionais, fator que pode contribuir para normalizar preços e recompor a demanda por novos títulos. Maior giro tende a reduzir o spread exigido nas emissões primárias, favorecendo empresas de alta qualidade creditícia que planejam captar recursos ainda em 2026.
Contudo, enquanto persistir a lembrança recente de volatilidade, a estratégia prevalecente segue ancorada em liquidez. Gestoras priorizam recompor o caixa drenado pelos resgates, mantendo margem de segurança para cenários de estresse.
Conclusão técnica
Os fundos de crédito privado vivenciaram em 2026 a maior retirada líquida da série histórica recente, totalizando R$ 40 bilhões. A fuga se direcionou majoritariamente para Tesouro Selic, fundos CDI e CDBs de grandes bancos, evidenciando busca por liquidez imediata e proteção contra volatilidade. Embora a performance dos fundos tenha voltado a superar o CDI em maio, gestores mantêm postura cautelosa, com elevada posição de caixa e preferência por títulos de curto prazo. A melhora gradual da liquidez no mercado secundário pode, nos próximos trimestres, ajustar spreads e reativar emissões, mas o ritmo de reentrada de capital dependerá da consistência dos retornos frente ao CDI e da estabilização da percepção de risco entre os investidores.



