O Banco do Brasil encerrou o 2º trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões, mas manteve provisões robustas de R$ 18,5 bilhões para cobrir a escalada da inadimplência no agronegócio; para atravessar o ciclo adverso, a instituição acelera o crédito consignado, reforça a recuperação de ativos e projeta uma trajetória de resultados em formato de ‘W’.
Crédito rural pressiona balanço e recria cenário dos anos 1990
Trinta anos após enfrentar uma de suas crises mais severas, o Banco do Brasil voltou a registrar deterioração significativa na carteira ligada ao agronegócio. A inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,61 % da carteira total no 2T26, índice diretamente influenciado pelo aumento de atrasos entre produtores rurais. Conforme destacou o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Geovanne Tobias, parte relevante do salto decorre do “compasso de espera” criado pela expectativa de renegociação setorial.
Muitos clientes optaram por suspender pagamentos na esperança de condições especiais previstas na Medida Provisória 1.376, publicada apenas em julho. Como os efeitos da norma não foram refletidos no trimestre, o banco precisou reconhecer o risco moral nos demonstrativos, elevando a despesa de provisão. Ainda assim, o executivo reforçou que a instituição demonstrou capacidade de gerar lucro mesmo sob pressão, apoiada na diversificação de receitas e no controle de despesas administrativas.
Reposicionamento da carteira: expansão do consignado e freio em crédito sem garantia
Para reduzir a dependência do crédito rural, a administração intensificou a mudança do mix de ativos. O principal vetor é o consignado, modalidade considerada de menor risco. A carteira de consignado público aproximou-se de R$ 160 bilhões, avançando cerca de 6 % no trimestre, enquanto o consignado privado — mercado em que o BB ingressou recentemente — posicionou a instituição como virtual vice-líder, segundo Tobias.
Em contrapartida, segmentos sem garantia, como cartão de crédito, sentiram reflexos do ciclo de juros altos e do onboarding digital acelerado, que ampliou a base de clientes, mas também elevou o perfil de risco. A resposta da gestão foi “pisar no freio”: limites foram revistos, alçadas de concessão ajustadas e a originação nessas linhas temporariamente contida, evitando deterioração adicional no índice de inadimplência.
Estratégias de cobrança e perspectiva de recuperação em ‘W’
Além de recalibrar a originação, o banco reforçou a área de cobrança. No 2T26, foram recuperados R$ 1,9 bilhão, resultado aquém da meta trimestral de R$ 2,5 bilhões. A administração intensificou notificações extrajudiciais, ampliou ações judiciais e passou a lidar com volume maior de recuperações judiciais de produtores. Tobias avalia que a “nova arquitetura” de cobrança já apresenta ganhos de eficiência que devem se refletir nos números do segundo semestre.
Quanto à trajetória de resultados, o executivo abandonou a expectativa de recuperação em ‘V’ ou ‘U’ e passou a adotar o formato de ‘W’. O modelo assume uma primeira reação positiva — já observada no lucro do 1T26 — seguida por nova pressão sobre o custo de crédito antes de uma retomada sustentável. A efetivação da MP 1.376 é vista como peça-chave para suavizar a segunda perna dessa curva, reduzindo provisões a partir do 3T26, embora não se projete corte pela metade dos atuais níveis.
Capital, liquidez e impacto regulatório
Mesmo com a maior despesa de provisão, os indicadores prudenciais permanecem confortáveis. O Índice de Basileia encerrou junho em 15,1 %, acima do mínimo regulatório de 10,5 %. A folga de capital garante espaço para acomodar oscilações no custo de risco sem necessidade imediata de restrições adicionais ao crescimento. Já o Índice de Liquidez de Curto Prazo (LCR) ficou em 155 %, indicando colchão adequado frente a saídas de recursos inesperadas.
No campo regulatório, o avanço da agenda de crédito direcionado ao agro pode alterar a dinâmica de subsídios e garantias, afetando margens futuras. O banco acompanha de perto as discussões sobre equalização de taxas no Plano Safra 2026/27 e sobre possíveis ajustes no Fundo de Garantia de Operações (FGO) para assegurar menor exigência de capital em operações rurais.
Conclusão Técnica
A combinação de lucro recorrente positivo, manutenção de capital robusto e estratégia de diversificação coloca o Banco do Brasil em posição de absorver a segunda onda de inadimplência prevista no modelo em ‘W’. A instituição continuará priorizando o crescimento no consignado e intensificando a recuperação de créditos inadimplentes, enquanto aguarda o efeito pleno da MP 1.376 para aliviar provisões no segundo semestre. O desempenho operacional nos próximos dois trimestres dependerá do ritmo de regularização das dívidas rurais, do comportamento dos indicadores de risco na pessoa física e da sustentação dos níveis de capital frente às exigências regulatórias já conhecidas.



