Bancos projetam alta adicional da inadimplência no 3º trimestre de 2026, indica pesquisa do Banco Central

Instituições financeiras estimam nova deterioração da qualidade do crédito no período de julho a setembro de 2026, ainda que em ritmo inferior ao registrado no trimestre anterior, segundo a Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC) divulgada pelo Banco Central.

Oferta de crédito mantém viés restritivo mesmo com demanda firme

A PTC — termômetro que monitora a percepção de bancos sobre mercado de crédito — sinaliza que, no segundo trimestre de 2026, a oferta já havia se tornado mais seletiva na maioria dos segmentos pesquisados. Esse aperto, impulsionado pelo avanço da inadimplência e pela menor disposição das instituições em assumir risco, tende a persistir entre julho e setembro.

Conforme o relatório, a demanda por recursos permanece resiliente, movimento atribuído à estabilidade do funding corporativo e à sustentação gerada pelo mercado de trabalho no varejo. Entretanto, o índice de aprovação de novos empréstimos encolhe. Entre os fatores que continuam travando o fluxo de crédito estão:

  • Avaliação negativa da inadimplência observada no 2T26;
  • Níveis historicamente elevados de comprometimento de renda das famílias;
  • Spread de risco maior, refletindo cautela regulatória e macroeconômica.

Empresas de menor porte sentem impacto mais intenso

O segmento de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) figura entre os mais afetados. Ainda que iniciativas de fomento público tenham atenuado parcialmente a restrição no 2T26, os bancos relatam preocupação adicional com a capacidade de pagamento desse grupo, em razão de margens comprimidas e maior exposição a oscilações de caixa.

Para o 3T26, a pesquisa revela expectativa de continuidade do aperto, motivada principalmente por:

  1. Alta projetada da inadimplência — apontada como o primeiro vetor de risco;
  2. Condições macroeconômicas domésticas que reduzem previsibilidade de fluxo de caixa;
  3. Concorrência bancária que, embora mitigue preços, não elimina barreiras de concessão.

No caso das grandes empresas, a retração do crédito observada desde o 1T26 deve se manter estável. A justificativa combina aumento da inadimplência pontual em determinados setores e revisões de projeções de receita, fatores que alimentam políticas de risco mais restritivas.

Crédito ao consumo pressiona indicadores de risco

As linhas voltadas a pessoa física apresentam trajetória semelhante. Segundo o levantamento, a combinação de custo de captação elevado e menor tolerância a risco tende a elevar o grau de restrição na concessão de crédito ao consumo. Apesar disso, o funding ainda se mostra suficiente para sustentar a oferta, condição que pode limitar uma retração mais aguda.

O mercado de trabalho aquecido segue como principal amortecedor. Dados recentes apontam taxa de desemprego em torno de 7,8%, patamar que colabora para manter a demanda, mas não neutraliza o efeito do endividamento acumulado. Na avaliação das instituições, o nível de comprometimento de renda das famílias permanece acima de 30%, o que restringe expansões mais agressivas nos portfólios de varejo.

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No crédito habitacional, que havia exibido estabilidade no 2T26, os bancos projetam leve aperto no 3T26 devido à maior expectativa de inadimplência e à redução da tolerância a risco em contratos de longo prazo.

Programas de renegociação aliviam, mas não resolvem

A entrada em operação do Novo Desenrola Brasil, voltado a devedores com renda de até cinco salários-mínimos e dívidas em atraso acima de 90 dias, renegociou R$ 25,51 bilhões até agosto, segundo dados citados na pesquisa. Iniciativas complementares, como o Desenrola Adimplentes, também buscam reorganizar carteiras, ofertando troca de dívidas antigas por novas condições.

Apesar do volume expressivo, as instituições consultadas na PTC consideram que os programas ainda não produzem efeito suficiente para reverter a tendência de deterioração dos indicadores de qualidade de crédito. O entendimento majoritário é que tais medidas operam como “amortecedores”, reduzindo a velocidade, mas não alterando a direção do ciclo.

Esse diagnóstico sustenta a política de manutenção de provisões robustas e a continuidade de modelagens de risco conservadoras, sobretudo em linhas não colateralizadas.

Conclusão técnica

O resultado da Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito aponta que a inadimplência deve seguir em trajetória ascendente no 3T26, impactando oferta e custo do crédito em todo o sistema financeiro. A expectativa de ritmo menor de deterioração não altera a postura mais cautelosa dos bancos, que mantêm critérios seletivos e provisões reforçadas. Para os próximos trimestres, a eficácia de programas de renegociação e a evolução do mercado de trabalho serão vetores determinantes na calibragem do risco, mas, no cenário atual, a qualidade do crédito permanece sob pressão.