Aeris busca proteção judicial de 60 dias para renegociar dívida de R$ 1,94 bilhão

A fabricante de pás para turbinas eólicas Aeris protocolou medida cautelar na Justiça para suspender por até 60 dias qualquer execução ou ação de cobrança, enquanto negocia a repactuação de um passivo que chega a R$ 1,94 bilhão com bancos e detentores de debêntures.

Antecedentes da iniciativa judicial

A companhia comunicou na quinta-feira, 20 de agosto de 2026, que a ação tramita em segredo de Justiça e foi acompanhada da abertura de um procedimento de mediação no Centro de Mediação da Associação dos Advogados de São Paulo (CMAASP). O objetivo é criar uma “blindagem temporária” que permita discutir, sem a pressão de potenciais bloqueios de caixa ou leilões judiciais, mudanças nas condições contratuais de suas obrigações financeiras.

Segundo a Aeris, a medida não afeta as operações industriais, o relacionamento com fornecedores correntes nem o cronograma de entregas a clientes. A empresa reforçou que a iniciativa é preparatória e restrita às dívidas atualmente em negociação, preservando obrigações assumidas após o protocolo da cautelar.

A estratégia ocorre pouco mais de um ano depois do reperfilamento concluído em maio de 2025, quando cerca de 90 % do endividamento teve prazos alongados. Na ocasião, a extensão dos vencimentos era apresentada como solução suficiente para reduzir pressões de curto prazo. Entretanto, a deterioração do fluxo de caixa e a permanência de juros elevados minaram essa expectativa, exigindo uma nova rodada de diálogos com credores.

Perfil da dívida e credores envolvidos

O passivo financeiro da Aeris é composto por aproximadamente R$ 1,2 bilhão em debêntures e quase R$ 600 milhões em linhas bancárias, distribuídas entre BNDES, Banco do Nordeste (BNB), Banco do Brasil, Santander e BV. A dívida líquida, que considera a posição de caixa, encerrou o segundo trimestre de 2026 em R$ 1,94 bilhão, alta de 19,2 % em doze meses.

O encarecimento do serviço da dívida decorre principalmente do aumento da taxa básica de juros no período e da correção monetária incidente sobre debêntures indexadas. Além disso, a companhia registra encargos associados ao ajuste a valor justo temporal das cotas de um FIDC utilizado para financiar recebíveis, o que pressiona o resultado financeiro.

Embora a administração não tenha detalhado parâmetros da renegociação em andamento, fontes próximas às tratativas indicam a possibilidade de nova extensão de prazos, redução temporária de amortizações e, potencialmente, conversão parcial de débito em instrumentos híbridos de capital, dependendo da adesão dos credores e da evolução do plano de geração de caixa.

Desempenho financeiro recente

No segundo trimestre de 2026, a Aeris reportou prejuízo líquido de R$ 152 milhões. O indicador apresentou leve melhora de 4,8 % na comparação anual, mas representou recuo de 10,2 % frente ao trimestre imediatamente anterior. O resultado foi influenciado por despesas financeiras superiores, reflexo direto do aumento dos encargos sobre empréstimos e debêntures.

A receita operacional líquida atingiu R$ 129,2 milhões, queda expressiva de 46,6 % em doze meses, ainda que tenha apresentado avanço de 22,4 % na variação trimestral. O desempenho fraco reflete a menor demanda interna por aerogeradores e a ausência de novos contratos relevantes no mercado brasileiro de energia eólica ao longo do período.

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O Ebitda permaneceu negativo em R$ 16,7 milhões, porém a companhia destacou melhora de 73,3 % ante igual intervalo de 2025 e de 39,5 % em relação ao primeiro trimestre. A evolução foi atribuída à retomada gradual de linhas de produção, diluição de custos fixos e ajustes de margem bruta.

No mercado acionário, os papéis AERI3 acumulam depreciação de cerca de 30 % em 2026, ampliando a perda para mais de 98 % desde o IPO realizado em 2020. O comportamento dos preços reflete ceticismo quanto ao ritmo de melhora operacional e à capacidade de equacionar a estrutura de capital sem medidas mais radicais de reestruturação.

Perspectivas e próximos passos

A Aeris afirma manter estudos contínuos sobre alternativas para fortalecer a estrutura de capital, alinhando-a à expectativa de geração de caixa nos próximos anos. Entre as opções citadas no mercado estão: captação de recursos por meio de aumento de capital, venda de ativos não essenciais, emissão de instrumentos híbridos e parcerias estratégicas que adicionem escala ou reduzam volatilidade da demanda.

Durante o período de 60 dias de suspensão de execuções, a companhia e os principais credores deverão avaliar cenários de reescalonamento do passivo, estimativas de fluxo de caixa descontado e possíveis gatilhos de covenants para novos contratos. Caso a mediação avance, a proteção poderá ser convertida em acordo extrajudicial homologado, evitando um pedido formal de recuperação judicial. Se não houver consenso, o acionamento de mecanismos judiciais mais amplos não é descartado.

Paralelamente, a administração projeta retomada gradual do mercado eólico doméstico a partir de leilões de energia previstos para o fim de 2026 e início de 2027. A execução desses contratos, combinada à reativação das linhas de produção e à diluição de custos fixos, é apontada como elemento essencial para sustentar um plano de amortização viável.

Conclusão técnica

A solicitação de proteção judicial de até 60 dias insere-se como etapa tática dentro de um processo maior de reestruturação financeira iniciado em 2025. O passivo de R$ 1,94 bilhão, o ambiente de juros elevados e a retração temporária do mercado eólico impõem desafio relevante à Aeris, que busca alinhar prazos e custos de dívida à capacidade de geração de caixa projetada. O sucesso da mediação junto aos principais bancos e debenturistas definirá se a companhia conseguirá estabilizar sua estrutura de capital por via consensual ou se precisará recorrer a instrumentos judiciais de maior amplitude nos próximos trimestres.