O Banco Central (BC) elabora um pacote de medidas para reduzir a expansão do crédito de maior risco e frear o endividamento das famílias brasileiras, afirmou Gabriel Galípolo na abertura da Febraban Tech 2026 nesta segunda-feira (24). A iniciativa responde ao aumento das dívidas em modalidades com juros elevados mesmo em cenário de renda em alta e desemprego em baixa, fenômeno que acendeu o alerta da autoridade monetária.
Crescimento do crédito e endividamento persistente
Dados apresentados pelo presidente do BC revelam que a concessão de crédito continua avançando em ritmo superior ao recuo na inadimplência. Apesar de melhorias no mercado de trabalho, o comprometimento da renda permanece elevado. Galípolo questionou por que a renda adicional não se converteu em redução do passivo, indicando um descompasso entre oferta de crédito e qualidade do endividamento.
O panorama preocupa especialmente porque o consumo financiado tem se concentrado em produtos de curto ciclo de vida, sem geração de ativos que compensem o custo financeiro. Segundo o BC, o problema não está em operações como o financiamento imobiliário, mas no uso de linhas caras para despesas rotineiras ou consumo de curto prazo.
Modalidades que concentram maior risco
Entre as modalidades monitoradas, o cartão de crédito aparece como principal foco. Dos 96 milhões de usuários, 52,8 milhões carregam saldo no rotativo ou em parcelamentos com juros. O comprometimento médio de renda com o cartão já atinge 54 %, enquanto a taxa mensal do rotativo chega a 15,1 %.
No consignado privado, a carteira saltou de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em maio de 2026, alta de 145 %. A inadimplência passou de 5 % para 6,7 % no mesmo intervalo, acompanhada de avanço da taxa média de juros de 40,9 % para 57 %.
O crédito pessoal sem garantia também preocupa. A carteira totalizou cerca de R$ 400 bilhões em maio de 2026, dos quais R$ 275 bilhões não contam com colateral. A diferença de preço é expressiva: operações com garantia têm custo anual em torno de 27 %, enquanto as sem garantia superam 140 %. Para Galípolo, os números mostram que risco e ausência de garantias pesam mais no custo final que a própria taxa básica de juros.
Da inclusão ao uso qualificado do sistema financeiro
A popularização do Pix desempenhou papel central no acesso de milhões de brasileiros ao sistema bancário. A ferramenta, entretanto, gerou efeito colateral: ampliação do uso de produtos de crédito sem a correspondente educação financeira. Galípolo destacou a necessidade de avançar para a fase de suitability, identificando linhas adequadas a cada perfil de consumidor.
O BC avalia novos critérios de análise de risco e iniciativas de transparência. Entre as medidas em estudo estão limites mais rígidos para o rotativo do cartão, diferenciação de capital regulatório conforme a qualidade da garantia e refinamento dos modelos de score de crédito, contemplando comportamento de pagamento no instant payments. O objetivo é alinhar incentivos para que bancos e fintechs ofertem produtos compatíveis com a capacidade de pagamento dos clientes.
Galípolo alertou ainda que a combinação de juros elevados e ampliação de linhas sem garantias acirra a vulnerabilidade das famílias. Caso não haja adequação, o ciclo de endividamento tende a pressionar o sistema financeiro por meio de maior inadimplência e necessidade de provisões adicionais.
Perspectivas regulatórias
A equipe técnica do BC trabalha em sinergia com o Conselho Monetário Nacional e outras autarquias para definir o desenho final do pacote. Entre os próximos passos, estão a realização de consultas públicas, ajustes nos normativos de concessão de crédito e campanhas de comunicação para fortalecer a cultura de planejamento financeiro.
O cronograma preliminar prevê divulgação de propostas formais até o quarto trimestre de 2026. Se aprovadas, as medidas podem entrar em vigor de forma escalonada a partir de 2027, oferecendo período de adaptação aos agentes financeiros.
Conclusão Técnica
Os dados apresentados na Febraban Tech 2026 confirmam que o avanço do crédito, sem análise criteriosa de risco e garantia, amplia a exposição das famílias a dívidas onerosas. O Banco Central pretende intervir com ajustes regulatórios que privilegiem a qualidade sobre a quantidade de crédito, disseminando práticas de concessão mais prudentes. A efetividade do pacote dependerá da cooperação entre regulador, instituições financeiras e consumidores, com metas de redução progressiva do endividamento em modalidades de juros elevados a partir das novas regras projetadas para o próximo ano.



