Braskem protocolou nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, o pedido de recuperação extrajudicial que suspende imediatamente a cobrança de cerca de R$ 52 bilhões em dívidas, garantindo à petroquímica um período de 90 dias para negociar termos de reestruturação com credores após obter 39,6 % de adesão — acima do mínimo legal de 33 %.
Detalhes do pedido e adesão dos credores
O protocolo foi feito horas depois de o Conselho de Administração aprovar formalmente a iniciativa. A companhia informou que o processo abrange a Braskem S.A. e determinadas controladas, mantendo de fora obrigações operacionais com fornecedores, clientes e colaboradores. Com a medida, a empresa preserva a continuidade normal das atividades enquanto negocia a dívida financeira, majoritariamente denominada em dólar.
Segundo o fato relevante, o grupo de bondholders — detentores de títulos no exterior — responde por aproximadamente US$ 7 bilhões da exposição total. Esse coletivo concentrava a maior resistência ao plano inicial, que propunha apenas alongamento de prazos e período de carência. A adesão de quase 40 % legitima o pedido perante a Justiça e impede execuções individuais durante o prazo de blindagem.
O recurso à recuperação extrajudicial ocorre após o término da tutela obtida em junho, que dava 60 dias de proteção contra credores. Ao optar pelo mecanismo previsto na Lei 11.101/2005, a petroquímica evita o litígio mais extenso de uma recuperação judicial tradicional, negociando diretamente com os titulares dos créditos.
Estrutura da proposta de reestruturação
Apelidado internamente de Projeto Catalyst, o plano serve como base para as tratativas a serem conduzidas até novembro. Entre as premissas apresentadas estão:
- Prorrogação dos vencimentos originais em até cinco anos;
- Suspensão temporária do pagamento de juros, com capitalização dos valores via mecanismo Payment-in-Kind até o fim de 2028;
- Redução de 200 pontos-base nas taxas de juros futuras;
- Aportes adicionais dos principais acionistas — Petrobras e fundo Shine I — para reforço de liquidez, caso necessário;
- Possibilidade de novos investidores participarem do refinanciamento.
A administração afirma que a reestruturação tem como objetivo construir uma “estrutura de capital sustentável de longo prazo”. Embora detalhes finais dependam da negociação com cada classe de credores, a empresa sustenta que a arquitetura proposta gera economia de caixa imediata, essencial para enfrentar o ciclo de margens comprimidas na indústria petroquímica global.
Contexto financeiro e repercussões no mercado
O endividamento elevado decorre de pressões combinadas: queda de spreads petroquímicos internacionais, apreciação do dólar frente ao real e desembolsos relacionados aos desdobramentos judiciais em Maceió (AL). O cenário deteriorou-se adicionalmente quando a subsidiária mexicana Braskem Idesa entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos na semana anterior, sinalizando a abrangência regional da crise de liquidez.
No mercado de capitais, as ações preferenciais BRKM5 recuaram 7,10 % na B3 no dia da divulgação, encerrando a R$ 4,71 e acumulando queda de 40 % em 2026. Agências de rating reagiram de forma negativa: a Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito de “C” para “RD” (Restricted Default) após a companhia não honrar juros dentro do prazo de carência.
Analistas do Citi avaliaram o movimento como “amplamente esperado”, uma vez que a liminar de 60 dias expirava nesta segunda-feira. Para o banco, o sucesso da renegociação dependerá do engajamento total dos bondholders, que exigem contrapartidas além do simples alongamento, como possíveis garantias adicionais ou mecanismos de conversão de dívida em ações.
Conclusão técnica
A formalização da recuperação extrajudicial concede à Braskem janela de 90 dias para alinhar interesses de credores, acionistas e gestores na busca de uma solução cooperada. Durante esse período, permanecem suspensas execuções individuais, permitindo foco integral na revisão da estrutura de capital. Caso o acordo seja ratificado nos termos propostos, a petroquímica reduzirá pressões de curto prazo sobre caixa e poderá preservar investimentos operacionais enquanto aguarda melhora cíclica das margens globais. Se, contudo, não houver consenso mínimo de adesão, o grupo poderá recorrer a instrumentos mais prolongados — inclusive a recuperação judicial — para evitar default pleno.



