O economista Felipe Salto declarou que o risco de quebra das contas públicas brasileiras é nulo, apesar de a dívida bruta ter alcançado cerca de 82,5% do Produto Interno Bruto; segundo ele, a combinação entre mercado de títulos desenvolvido e liquidez superior a R$ 1 trilhão afasta qualquer hipótese de calote, embora exija um plano fiscal crível já no período de transição presidencial.
Mercado de dívida robusto sustenta confiança
Em participação no podcast Touros e Ursos, do portal Seu Dinheiro, o economista-chefe da Warren Investimentos argumentou que parte dos agentes financeiros adota postura “alarmista” em relação ao quadro fiscal. Para Salto, o Brasil registra um dos mercados de dívida mais desenvolvidos entre economias emergentes, com elevada capacidade de rolagem de títulos. A reserva de liquidez em torno de R$ 1 trilhão — mantida em depósitos, caixa do Tesouro Nacional e colchões cambiais — funcionaria como proteção adicional contra choques de curto prazo.
Esse diagnóstico difere da leitura de segmentos da chamada “Faria Lima”, que projetam deterioração acelerada das contas públicas caso não haja contenção imediata do gasto. Segundo o economista, modelos que supõem manutenção permanente da Selic em patamar elevado e ausência de reformas distorcem o cenário prospectivo. Ele acrescentou que, mesmo com endividamento em trajetória ascendente, a estabilidade recente do déficit primário impede classificá-lo como crise.
Trajetória da dívida e metas factíveis de superávit
Salto reconheceu a necessidade de estancar o crescimento da dívida bruta, atualmente em 82,5% do PIB. O parâmetro supera a média dos emergentes, mas segue distante dos níveis observados em economias avançadas com maior grau de sofisticação financeira. O ponto central para o próximo governo, segundo o economista, é apresentar um plano de ajuste capaz de gerar superávit primário entre 0,3% e 0,5% do PIB nos primeiros anos de mandato. Esse intervalo seria suficiente para sinalizar compromisso, evitar elevações adicionais do prêmio de risco e permitir convergência gradual da relação dívida/PIB.
Para construir credibilidade, Salto defende pacote de medidas distribuído em “meia dúzia” de iniciativas de fácil implementação legislativa. A referência inclui alterações em regras de indexação de despesas, aprimoramento de metas dentro do novo arcabouço fiscal e modernização de instrumentos de acompanhamento do gasto obrigatório.
Prioridades de corte e recomposição de receitas
O economista hierarquizou quatro frentes consideradas mais efetivas no curto prazo:

- Redução das emendas parlamentares, vista como mecanismo de alocação de recursos pouco escrutinado e de baixa transparência.
- Combate aos supersalários no funcionalismo, mediante fixação de teto remuneratório real e revisão de verbas indenizatórias.
- Corte de benefícios tributários ineficientes, hoje estimados em R$ 620 bilhões anuais, com revisão de subsídios concentrados em poucos segmentos empresariais.
- Reavaliação de programas sociais que cresceram acima do projetado, preservando transferências essenciais mas ajustando parâmetros fora da tendência.
Na avaliação de Salto, concentrar o esforço inicial em itens com menor respaldo popular facilita a construção de legitimidade política. Somente após esgotar possibilidades de racionalização de despesas e revisão de incentivos fiscais seria pertinente discutir eventuais mudanças em benefícios indexados ao salário mínimo ou em regras previdenciárias.
Repercussões no mercado e indicadores recentes
A percepção de risco fiscal elevado tem pressionado prêmios de vencimentos longos dos títulos do Tesouro nos últimos meses. Entretanto, a demanda pela mesa de títulos públicos da Warren permanece “gigantesca”, de acordo com o economista. O dado sugere que investidores institucionais ainda veem a curva brasileira como oportunidade, amparados por quadro macroeconômico de inflação em queda e ciclo de cortes na taxa básica.
Ao mesmo tempo, fatores externos adicionam volatilidade. A disparada do preço do petróleo, motivada pelas tensões no Oriente Médio, reforçou expectativas de inflação global mais persistente. Esse movimento, aliado a decisões de política monetária de grandes bancos centrais, influencia o custo de rolagem da dívida doméstica.
Conclusão Técnica
As declarações de Felipe Salto indicam que a sustentabilidade fiscal brasileira depende menos do risco de insolvência — classificado como inexistente — e mais da capacidade de implementar ajustes graduais que estabilizem a relação dívida/PIB. A robustez do mercado de capitais local, combinada com a expressiva reserva de liquidez do Tesouro, sustenta a confiança de investidores. Contudo, a continuidade dessa percepção favorável exige que o governo eleito detalhe, durante a transição, um plano crível de superávit primário modesto, baseado sobretudo em contenção de gastos pouco eficientes e racionalização de renúncias tributárias. O cronograma e a eficiência dessas medidas serão monitorados de perto por agentes financeiros e podem definir o comportamento da curva de juros e o apetite por títulos soberanos ao longo do próximo mandato.



