Safra revisa para baixo preços-alvo de Itaú, Bradesco e Banco do Brasil após avanço da inadimplência

O Banco Safra cortou as projeções de preço-alvo para as ações de Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3) após identificar um ciclo de crédito mais restritivo, marcado pela alta da inadimplência e pelas novas exigências da Resolução 4.966. Embora o cenário não indique risco sistêmico à solidez do setor, a instituição prevê expansão de lucros mais contida e exige cautela na expectativa de valorização dos papéis.

Pressão regulatória e qualidade dos ativos

A publicação da Resolução 4.966, em vigor desde o início de 2026, elevou os parâmetros de provisão para perdas, aumentando o colchão de capital exigido dos bancos. Esse ajuste tornou menos comparável a série histórica de inadimplência e expôs a materialização do risco em carteiras de pessoa física. O Safra reconhece diferença entre um ciclo adverso e uma crise bancária; no entanto, o diagnóstico é de que a deterioração da qualidade dos ativos deve persistir nos próximos trimestres.

Para mitigar o efeito do novo enquadramento regulatório, as instituições ajustam a concessão de crédito, priorizando linhas com garantia pública — como FGI e FGO — e operações de crédito consignado. A estratégia, porém, limita o ritmo de expansão da carteira, comprimindo a perspectiva de crescimento de receita.

Revisões de preço-alvo: impactos banco a banco

Itaú Unibanco: o preço-alvo foi reduzido de R$ 26 para R$ 22, ainda com recomendação de compra e potencial de +21 % sobre o último fechamento. A composição da carteira e a disciplina na concessão tornam o Itaú menos sensível à piora dos ativos, mas a casa projeta que, daqui em diante, o lucro dependerá mais de eficiência operacional do que de ganho de volume.

Bradesco: revisão de R$ 27 para R$ 26, mantendo recomendação neutra e potencial de +14 %. A exposição maior ao segmento de baixa renda e a consequente sensibilidade ao crédito prolongam a recuperação de rentabilidade. Fatores compensatórios incluem o aumento de capital planejado de até R$ 10 bi e a contribuição estável do braço de seguros.

Banco do Brasil: novo preço-alvo de R$ 51 ante R$ 55, com recomendação de compra e potencial de +20 %. O Safra destaca pressão simultânea em dois focos: agronegócio — onde a carteira rural carece de garantias aprimoradas — e varejo, cuja inadimplência acima de 90 dias subiu 160 p.b. no trimestre. A MP 1.376, que permite renegociar até R$ 100 bi em dívidas agrícolas, tende a aliviar o curto prazo, mas não soluciona integralmente a qualidade dos ativos.

Cenário de crédito e projeções de rentabilidade

A cautela generalizada reflete a reavaliação do risco no segmento de pessoa física, notadamente após o pico de endividamento observado em 2025. Dados consolidados pelo Banco Central indicam que a taxa de inadimplência acima de 90 dias saltou de 3,4 % para 4,2 % em doze meses, o maior patamar desde 2020. A tendência pressiona provisões e, por consequência, o retorno sobre patrimônio (ROE).

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Segundo o Safra, a média ponderada de ROE dos grandes bancos poderá recuar de 18,5 % em 2025 para 16,8 % em 2027. Itaú deve permanecer acima da média, sustentando prêmio de valuation, enquanto Bradesco e Banco do Brasil enfrentam desafios mais acentuados para recompor margem financeira.

A competição nos segmentos de alta renda intensifica-se com a entrada de plataformas digitais e gestoras independentes, elevando o custo de aquisição de clientes. Simultaneamente, a busca por linhas garantidas oferece menor risco, porém margens estreitas, exigindo gestão ativa para evitar perdas acima dos parâmetros de stop-loss.

Conclusão técnica

A reprecificação das ações dos grandes bancos acompanha um ambiente de crédito menos favorável, marcado por inadimplência crescente e normas prudenciais mais rígidas. O Safra não identifica sinais de crise sistêmica, mas projeta crescimento de lucro mais modesto e dependente de eficiência interna. Investidores que buscam exposição ao setor devem calibrar expectativas de retorno, considerando a qualidade da carteira de cada instituição, a execução de políticas de custo e a velocidade de recuperação da atividade econômica.