Fed pode levar juros dos EUA além de 5% e ampliar impacto no Brasil, alerta Bank of America

O Bank of America (BofA) advertiu, em relatório divulgado após a decisão de 16 de setembro de 2026 do Federal Reserve, que a taxa básica norte-americana pode ultrapassar 5% ao ano, contrariando as expectativas majoritárias do mercado e inaugurando um novo patamar de aperto monetário com reflexos diretos sobre câmbio, inflação e custos de financiamento no Brasil.

Projeções do Bank of America e sinais do Federal Reserve

Os estrategistas Mark Cabana e Meghan Swiber, responsáveis pelo estudo, apontam que o mercado futuro precifica um pico entre 4,50% e 4,75%, enquanto a equipe do banco vê possibilidade de retorno aos níveis máximos do ciclo anterior, chegando a 5,50%. A leitura baseia-se nas declarações do presidente do Fed, Kevin Warsh, que caracterizou o aumento de 0,25 ponto percentual da semana passada — de 3,75%–4,00% para 4,00%–4,25% — como mera retirada de acomodação monetária, sinalizando que a política ainda não é considerada suficientemente restritiva.

Métricas de referência, como a Regra de Taylor, reforçam o diagnóstico. Aplicando-se as variáveis mais recentes de inflação e hiato do produto, a fórmula indica taxa ideal próxima de 5,3%. O BofA sustenta ainda que a persistência da inflação de serviços e o mercado de trabalho apertado fornecem cobertura estatística para novas altas.

Reação dos Treasurys e histórico de ciclos de alta

Imediatamente após o comunicado do Fed, o rendimento (yield) dos Treasurys de dois anos, títulos mais sensíveis à política monetária, tocou 4,75%, maior nível desde 2007. O BofA projeta avanço até 5% antes do encerramento de 2026, inclinação que tende a achatar a porção longa da curva e reforçar expectativas de juros reais positivos por período prolongado.

Comparativamente, o último ciclo acima de 5% ocorreu entre 2006 e 2007, antecedendo a crise financeira global. Naquela ocasião, a taxa alcançou 5,25% e manteve-se nesse patamar por aproximadamente 15 meses. Analistas recordam que, embora o contexto macroeconômico atual difira — com balanços bancários mais robustos e arcabouço regulatório reforçado —, o efeito contracionista sobre a liquidez tende a repetir-se.

Efeitos em cadeia sobre câmbio, inflação e Selic

O aumento do retorno dos Treasurys eleva a atratividade dos ativos de renda fixa em dólar, estimulando a migração de capitais de mercados emergentes para os Estados Unidos. Esse fluxo pressiona a taxa de câmbio brasileira, valorizando a moeda norte-americana e encarecendo importados, o que adiciona combustível às expectativas inflacionárias locais.

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Para conter a saída de recursos e limitar a inflação importada, o Banco Central do Brasil tende a manter a Selic em patamar elevado. Atualmente fixada em 13,75% ao ano, a taxa já aponta para um ciclo de cortes mais lento do que o projetado no início de 2026. Relatórios de casas de análise nacionais estimam que cada 0,25 p.p. adicional nos EUA pode adiar em um trimestre o início dos ajustes para baixo na política monetária doméstica.

Impacto sobre classes de ativos e portfólios brasileiros

A combinação de juros altos nos dois países tem potencial para reduzir a demanda por ativos de risco. No Brasil, o Ibovespa enfrenta maior sensibilidade à saída de capital estrangeiro, pressionando preços de ações, especialmente de empresas alavancadas ou dependentes de financiamento de longo prazo.

No mercado de renda fixa, títulos indexados à inflação (NTN-B) ou pós-fixados associados ao CDI tendem a permanecer em evidência, refletindo o prêmio de risco requerido pelos investidores. Fundos imobiliários, tradicionalmente beneficiados por ambiente de juros decrescentes, podem apresentar volatilidade acrescida, dada a perspectiva de manutenção da Selic em dois dígitos.

Conclusão Técnica

O cenário proposto pelo Bank of America reforça a leitura de que o Federal Reserve está disposto a prolongar o ciclo de aperto até que a inflação retorne de forma convincente à meta. Caso a taxa norte-americana avance além de 5%, a economia brasileira enfrentará câmbio mais pressionado, horizonte mais longo de juros elevados e condições financeiras globais mais restritivas. A trajetória dos próximos comunicados do Fed, bem como os dados de inflação de serviços e mercado de trabalho dos EUA, assumem papel decisivo na confirmação ou revisão dessa perspectiva.