As ações do Banco do Brasil (BBAS3) registraram alta acumulada de 26% nos últimos trinta dias, superando em mais de 14 pontos percentuais o desempenho do Ibovespa, movimento que analistas atribuem a uma combinação de fluxo estrangeiro, expectativa de alternância de poder nas eleições presidenciais de outubro e à possibilidade de recuperação operacional caso a inadimplência mostre alívio.
Reprecificação política impulsiona a cotação
Desde meados de agosto, gestores notaram uma mudança na percepção de risco político, alimentada pela possibilidade de transição governamental em 2027. Segundo Daniel Ustch, gestor de renda variável da Nero Capital, o Banco do Brasil tornou-se o ativo mais líquido para expressar apostas sobre o futuro da política econômica. Essa sensibilidade decorre do controle estatal e do histórico de interferências nas estratégias da instituição.
O papel negociava a 0,6 vez o valor patrimonial antes da arrancada e ainda opera nesse patamar, o que, para Ustch, amplia a reação do mercado a qualquer sinal de melhora. Na mesma linha, Tomás Barros, analista da AZ Quest, ressalta que o fluxo internacional também ganhou força: investidores globais buscam exposição ao Brasil por meio de companhias com governança em evolução e elevada liquidez, características presentes na empresa.
Apesar de o trade eleitoral explicar boa parte do rali recente, Barros enfatiza que lucros, qualidade de crédito e retorno sobre patrimônio líquido (ROE) continuarão determinantes para sustentar novas valorizações.
Fundamentos fragilizados desafiam o otimismo
No segundo trimestre de 2026, o Banco do Brasil reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, incremento trimestral de 13,9%. Mesmo assim, o ROE médio de 8,3% segue abaixo do custo de capital estimado para o setor. A inadimplência acima de 90 dias avançou para 5,61%, pressionada principalmente pela carteira rural, cujo saldo atingiu R$ 421,6 bilhões.
Para Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, quase nenhum ponto da valorização recente se apoia em fundamentos. Na visão dele, o banco enfrenta “situação mais delicada” após a deterioração do agronegócio e a migração de operações para o chamado Estágio 3, que reúne créditos com menor chance de recuperação.
O custo de crédito, somado entre provisões e despesas, chegou a R$ 18,5 bilhões no trimestre. Enquanto o colchão contra calotes permanece sob observação de casas como Citi, parte do mercado aguarda medidas de renegociação — previstas na MP 1.376 — surtirem efeito para tornar as provisões suficientes.

Agronegócio e pessoa física: focos de virada precisam mostrar resultado
A crise no agronegócio, responsável por restrição de caixa a produtores e descasamento de recebíveis, atingiu pico de inadimplência recorde em 2026. Analistas da XP projetam que o terceiro trimestre ainda refletirá extensão das renegociações, mas avaliam que a combinação de recuperação nos preços da soja e câmbio depreciado pode criar condições para redução do custo de risco a partir do quarto trimestre.
Além do agro, a carteira de crédito à pessoa física acendeu alerta. Segmentos de cartão e consignado começaram a apresentar formação de inadimplência acima da tendência histórica, prolongando o caminho para que o ROE volte à casa de dois dígitos. Tomás Barros alerta que, se esse processo levar mais tempo do que o mercado projeta, o desconto patrimonial atual deixará de ser justificativa suficiente para novas compras.
Potencial de valorização vs. riscos no radar dos gestores
Na métrica de preço/valor patrimonial (P/VPA), BBAS3 segue negociada em torno de 0,6 vez, enquanto pares privados operam acima de 1,3 vez. Daniel Ustch argumenta que, caso o banco retome um ROE igual ou superior ao custo de capital, existe “potencial de valorização relevante” pela convergência de múltiplos. Contudo, casas como a Empiricus preferem aguardar maior visibilidade de governança e eficiência antes de incluir o ativo em carteiras recomendadas.
Para investidores de longo prazo, Ustch sugere construções graduais de posição, diluindo a exposição ao evento eleitoral. Já aqueles interessados em curto prazo devem reconhecer que o papel embute parcela relevante de expectativa e pode apresentar volatilidade acentuada se as pesquisas de intenção de voto mudarem ou se os resultados do terceiro trimestre frustrarem.
Conclusão Técnica
O Banco do Brasil reúne hoje dois vetores distintos: expectativa política, que impulsionou a ação em 26% no mês, e fundamentos ainda pressionados por inadimplência elevada e rentabilidade deprimida. A convergência desses fatores definirá a trajetória da ação nos próximos trimestres. Se a carteira rural estabilizar, o crédito à pessoa física contiver deterioração e a eleição resultar em ambiente de governança mais pró-mercado, o desconto patrimonial pode se reduzir rapidamente. Caso contrário, a recente reprecificação corre o risco de antecipar ganhos que ainda não se refletem no balanço, exigindo do investidor maior horizonte de espera para confirmação da tese.