Galípolo detalha estratégia do BC para conter crédito predatório e sinaliza novo ciclo de juros

Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, afirmou nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, que a autarquia estuda medidas graduais para restringir linhas de crédito consideradas predatórias e confirmou que a precificação de cortes na Selic, hoje em 13,75 %, já reflete a leitura de uma economia em desaceleração, enquanto se prepara para depor à Polícia Federal no início de outubro sobre a fiscalização do Banco Master.

Juros elevados e inércia econômica: por que a Selic segue em patamar alto

Questionado sobre a trajetória da taxa básica, Galípolo explicou que a formação das expectativas mudou “gradativamente”, acompanhando indicadores de atividade, inflação e cenário externo. Segundo ele, a dinâmica atual se assemelha ao que ocorre em outros bancos centrais, mas encontra no Brasil um agravante histórico: o processo de indexação de preços, que gera inércia inflacionária. Esse fator, apontou, justifica parte da diferença entre os juros domésticos e os observados em economias comparáveis.

O presidente do BC descartou decisões “ciclópicas” — alusão à figura mitológica de um ser com apenas um olho — para ilustrar o risco de enxergar o cenário por um único ângulo. “Humildade para interpretar dados em períodos de incerteza”, reforçou, será o princípio que guiará as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária. Apesar de não confirmar datas, a autoridade monetária monitora a convergência da inflação às metas para calibrar cortes futuros.

Crédito predatório na mira: etapas da nova regulação macroprudencial

O tema mais explorado na coletiva foi o de limitar ofertas de crédito com custo desproporcional para consumidores que poderiam acessar produtos mais adequados. Cartão de crédito, crédito pessoal não consignado e financiamentos de pequenas despesas parceladas são os principais focos. “O problema é o risoto em seis vezes sem juros”, disse Galípolo, mencionando que o compromisso de pagamento de itens cotidianos compromete renda e eleva inadimplência.

Inspirado em exemplos internacionais, o BC pretende adotar medidas macroprudenciais em fases, sem pacote único. Entre os instrumentos analisados estão: 1) limites de comprometimento de renda, 2) exigências de capital adicionais para riscos específicos e 3) transparência reforçada na precificação de juros ao consumidor. O objetivo imediato é estimular concorrência saudável, reduzir assimetrias de informação e evitar sobre-endividamento.

Galípolo adiantou que as propostas constarão em consultas públicas sucessivas e que o cronograma seguirá as divulgações regulares do Relatório de Política Monetária (RPM). A implementação, reiterou, obedecerá a testes de impacto para não restringir o crédito produtivo nem surpreender os agentes financeiros.

Casos Banco Master e BRB: postura institucional e cooperação com autoridades

O presidente confirmou ter sido intimado a depor como testemunha na Polícia Federal acerca dos procedimentos de supervisão aplicados ao Banco Master. Sem revelar a data exata, indicou que a oitiva ocorre no início de outubro e classificou o comparecimento como “parte natural do processo de apuração”. O ex-presidente Roberto Campos Neto também será ouvido.

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Sobre o Banco de Brasília (BRB), que permanece sem publicar balanços e paga multa mensal ao BC, Galípolo manteve a praxe de não comentar casos individuais. Declarou, contudo, que a autoridade monetária busca “a solução de menor impacto sistêmico”, defendendo a preservação de jurisprudência e o rigor regulatório.

Ele comparou a escalada de ações fiscalizatórias a uma “corrida entre doping e antidoping no esporte”: conforme modelos de risco se sofisticam, o BC amplia ferramentas analíticas e coopera com outras agências para prevenir falhas de conduta, inclusive em setores emergentes como apostas on-line.

Perspectivas e próximos capítulos da política monetária e do crédito

A direção do Banco Central sinaliza que cortes graduais na Selic serão debatidos nas próximas reuniões, condicionados à confirmação de desaceleração inflacionária e à percepção de risco fiscal. Na frente de crédito, o órgão deverá publicar, ainda em 2026, a primeira rodada de regras específicas para conter práticas consideradas predatórias.

No âmbito regulatório, o depoimento de Galípolo e de Campos Neto à PF tende a esclarecer a atuação do BC no caso Master, enquanto o processo envolvendo o BRB seguirá sob sigilo até definição legal. Paralelamente, ajustes na supervisão de fintechs e plataformas de “bets” ganharão prioridade para compatibilizar inovação e estabilidade.

Conclusão Técnica: O Banco Central, sob a liderança de Gabriel Galípolo, articula simultaneamente o início de um novo ciclo de flexibilização monetária e a construção de uma regulação macroprudencial capaz de mitigar o risco de crédito predatório. A agenda inclui: 1) avaliação contínua de dados para calibrar a Selic; 2) consulta pública sobre limites ao custo do crédito ao consumidor; 3) cooperação com a Polícia Federal e demais órgãos em investigações de instituições financeiras. As decisões, anunciadas de forma faseada, deverão impactar o custo de financiamento para famílias e empresas ao longo de 2027, mantendo o compromisso com a estabilidade de preços e a solidez do sistema bancário.

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