Dois modelos de tênis da Gucci, apresentados na Milan Fashion Week e já à venda por cerca de US$ 1.050, trazem a inscrição “Made in China”, contrariando a expectativa tradicional de fabricação na Itália e colocando em foco as decisões industriais da grife em meio à queda de vendas registrada nos últimos três anos.
Modelos, preços e especificações técnicas
O principal lançamento, batizado de Drip, marca a estreia de Demna Gvasalia na criação de calçados para a marca desde que assumiu a direção criativa em 2025. O par — vendido por aproximadamente € 800 na Europa e US$ 1.050 nos Estados Unidos — substitui o couro tradicional por nylon, lona ou camurça e elimina cadarços, conferindo formato similar ao de uma meia. Um segundo modelo slip-on, confeccionado em couro, também leva a etiqueta chinesa.
De acordo com a grife, ambos representam exceções dentro do portfólio: mais de 80 % da linha de calçados permanece fabricada em território italiano. A adoção do fornecedor chinês, segundo comunicado, ocorreu devido ao “conhecimento técnico” necessário para atingir os padrões de desempenho e qualidade exigidos.
Contexto financeiro e pressões sobre a cadeia de suprimentos
A decisão ocorre em um momento de pressão sobre a Kering, controladora da Gucci. As vendas da etiqueta caíram cerca de 50 % entre 2023 e 2026, comprimindo margens e resultando no fechamento de dezenas de lojas. Paralelamente, outro conglomerado de referência no setor, o LVMH, enfrenta recuo de 37 % em suas ações no mesmo período. Esse quadro sinaliza ajustes de custo generalizados na indústria de luxo.
Especialistas do mercado apontam que a margem de contribuição dos chamados consumidores aspiracionais — público sensível a preços que financia parte relevante do crescimento de marcas de alto padrão — vem encolhendo diante da desaceleração econômica global. O Drip, apesar de custar US$ 1 mil, posiciona-se abaixo do ticket médio de outros calçados da Gucci e tenta recuperar parte desse segmento intermediário.
Percepção de valor e impacto da procedência
No setor de luxo, a procedência pesa não apenas na qualidade percebida, mas também no valor simbólico do produto. A inscrição “Made in Italy” é historicamente associada à herança artesanal, enquanto “Made in China” carrega estereótipos ligados à produção em massa. Contudo, a China mantém o maior polo calçadista do mundo, atendendo inclusive marcas premium.

Para a Gucci, o desafio reside em equilibrar eficiência de custos com a manutenção do prestígio da marca. A grife garante que “a Itália continuará no centro” de seu modelo fabril e que não há planos de relocação em escala. Ainda assim, a inclusão de fornecedores asiáticos indica diversificação estratégica da cadeia de suprimentos — movimento observado em outras maisons diante de flutuações cambiais, custos trabalhistas na Europa e necessidade de prazos de entrega menores.
Implicações futuras e próximos movimentos
Analistas acompanham se a adoção pontual de fábricas chinesas se estenderá a categorias além de calçados ou servirá apenas como solução técnica temporária. Em caso de expansão, a Gucci deverá investir em comunicação de transparência para mitigar riscos de erosão de marca junto ao público mais tradicionalista.
Demna Gvasalia foi contratado para revitalizar o portfólio e reposicionar a etiqueta sem comprometer rentabilidade. O desempenho comercial das linhas Drip e slip-on ao longo de 2026 e 2027 servirá de termômetro para futuras decisões de alocação fabril.
Conclusão Técnica: A introdução da etiqueta “Made in China” nos novos tênis da Gucci evidencia a tensão entre controle de custos e manutenção do prestígio de origem no mercado de luxo. Embora a companhia reafirme o primado da produção italiana, a diversificação geográfica sinaliza ajuste pragmático às pressões de margem. O comportamento de venda desses modelos e a reação dos consumidores ao longo dos próximos trimestres serão determinantes para eventuais expansões ou revisões no mix fabril da grife.



