Viagem tranquila chega ao fim: Citi reduz recomendação de Motiva (MOTV3) para neutra e fixa preço-alvo em R$ 20,40

O Citi rebaixou em 22 de outubro de 2026 a recomendação para as ações da Motiva (MOTV3) de “compra” para “neutra”, mesmo elevando o preço-alvo de R$ 16,60 para R$ 20,40; a mudança reflete a forte valorização recente dos papéis, que limita o potencial de ganho futuro apesar de fundamentos ainda considerados sólidos.

Desempenho recente e mudança de postura do banco

As ações da Motiva, maior operadora de rodovias pedagiadas do país, avançaram com intensidade após as eleições de 2026, aproximando-se rapidamente do novo preço-alvo definido pelo Citi. Segundo o relatório, a alta restringiu o upside a cerca de 8,2 % ao ano em termos reais, apenas 1,3 ponto percentual acima do retorno oferecido por títulos públicos indexados à inflação. Esse prêmio reduzido motivou a revisão da classificação para “neutra”.

No terceiro trimestre, o tráfego nas rodovias administradas pela companhia mostrou fraqueza, enquanto as estimativas de Produto Interno Bruto (PIB) do banco foram ajustadas para baixo. O Citi também observa que o valor de mercado atual já incorpora boa parte das expectativas de expansão operacional, tornando a relação risco-retorno menos atrativa no curto prazo.

Parâmetros de avaliação e impacto dos juros

O banco calculou o valor da empresa por meio de fluxo de caixa descontado de todos os contratos de concessão até o término de cada vínculo, sem considerar valor residual, e aplicou custo de capital próprio de 13,5 %. A principal variável que elevou o preço-alvo foi a queda na curva de juros; taxas mais baixas reduzem o desconto aplicado aos fluxos futuros, elevando o valor presente dos projetos.

Apesar disso, a alavancagem inferior da Motiva, reforçada pela futura entrada de R$ 5,2 bilhões provenientes da venda de sua divisão de aeroportos (prevista para o 3T26), limita a capacidade de capturar ganhos adicionais com a rolagem de dívidas a custos menores. Apenas 21 % dos passivos atrelados à inflação da empresa remuneram taxa igual ou superior ao juro real de longo prazo dos títulos do Tesouro, segundo o Citi. Dessa forma, o papel tende a reagir menos a oscilações na Selic se comparado a concessões mais endividadas.

Revisão dos aditivos contratuais e projeções atualizadas

Os aditivos dos contratos de SPVias, AutoBAn e das Linhas 5 e 17 do Metrô de São Paulo, anteriormente apontados como catalisadores relevantes, agora apresentam cronograma mais alongado. Parte das aprovações deve ser empurrada para o primeiro semestre de 2027, diminuindo a geração incremental de caixa no curto prazo.

O montante repassado por esses aditivos é calculado sobre a média de 60 dias dos juros reais dos títulos públicos; logo, a trajetória de queda nas taxas implica revisões contratuais para baixo. Segundo as novas simulações do Citi, a redução no componente de receita é compensada por menor custo de dívida, resultando em valor líquido estável em relação ao estudo anterior, mas sem alterar a percepção de retorno restrito para o acionista.

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Riscos mapeados e possíveis catalisadores

Entre os fatores que podem dificultar a materialização do novo preço-alvo, o relatório cita:

  • Decisões regulatórias ou judiciais desfavoráveis nos âmbitos federal ou estadual.
  • Execução abaixo das metas internas de geração de retorno ao acionista.
  • Pagamento excessivo em novas licitações ou aquisições de ativos.
  • Elevação inesperada nos custos de insumos como asfalto e concreto.
  • Ambiente macroeconômico adverso, com PIB mais fraco ou juros superiores aos projetados.

Por outro lado, o Citi reconhece que aquisições de valor, ajustes vantajosos no portfólio, atividade econômica mais robusta e uma eventual continuidade da queda de juros podem levar a ação além dos R$ 20,40 estabelecidos no cenário base.

Estratégia corporativa e posicionamento financeiro

Desde a reorganização societária concluída em 2022, a Motiva prioriza a otimização dos ativos existentes: redução de custos operacionais, renegociação de contratos e aumento da distribuição de recursos aos acionistas. Além das rodovias, a companhia mantém operações em trens metropolitanos e aeroportos no Brasil, bem como participações em terminais no Equador, Costa Rica e Curaçao.

Com a desalavancagem em curso, a administração sinaliza que pretende sustentar uma estrutura de capital conservadora, característica destacada pelo Citi como vantagem competitiva em cenários de volatilidade macroeconômica, ainda que reduza a alavanca operacional frente a rivais mais expostos a crédito.

Conclusão Técnica: O rebaixamento de “compra” para “neutra” reflete essencialmente a compressão do prêmio de risco oferecido por MOTV3 após a recente valorização e a perspectiva de retorno real limitado a curto prazo. Premissas de juros menores sustentam o novo preço-alvo de R$ 20,40, mas a menor sensibilidade da Motiva ao ciclo de queda da Selic, a postergação dos aditivos contratuais e o cenário macroeconômico mais moderado justificam a cautela do Citi. A companhia segue com fundamentos sólidos e estrutura de capital robusta; no entanto, eventuais revisões positivas dependerão de desempenho operacional acima do estimado, conclusão célere dos aditivos e condições de mercado mais favoráveis.

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