O Bradesco divulgou o resultado do terceiro trimestre de 2026 com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões e retorno sobre patrimônio de 15,6%, mas o aumento da inadimplência e o ritmo mais lento de expansão do crédito levaram analistas a questionar a sustentabilidade do crescimento, mesmo após o banco elevar a participação de operações com garantias para 61,2% da carteira.
Resultados do 3T26 evidenciam pressão sobre qualidade do crédito
No período encerrado em setembro, a carteira de crédito somou R$ 1,15 trilhão, avanço de 11,1% em 12 meses, impulsionado principalmente por linhas às empresas. Apesar do incremento, o índice de atrasos acima de 90 dias em pessoa física alcançou 5,8%, refletindo o cenário macroeconômico restritivo. As provisões para perdas cresceram 7% no trimestre, superando a alta de 1% nas receitas, o que comprimiu a margem de intermediação.
Marcelo Noronha, CEO do banco, reconheceu a “pressão sobre crédito e inadimplência em todo o mercado”, mas afirmou que a carteira do Bradesco tem composição “mais segura” após mudanças iniciadas em 2023. Segundo o executivo, se a economia registrasse juros abaixo de 10% ao ano e crescimento mais robusto, o banco poderia expandir o crédito em até 20% e elevar o lucro líquido em R$ 400 milhões a R$ 500 milhões.
No pregão de 23 de outubro, as ações BBDC4 recuavam 2,23%, negociadas a R$ 19,76, movimento atribuído à percepção de risco maior na carteira de varejo.
Carteira mais colateralizada sustenta discurso de resiliência
O principal pilar da defesa apresentada pela administração está na elevação da participação de créditos com garantias. De 45,1% em dezembro de 2019, esse percentual subiu para 61,2% em setembro de 2026, incremento de 16,1 pontos percentuais. Entre pessoas físicas, aproximadamente 72% das operações contam com algum tipo de colateral.
Noronha classificou o portfólio atual como “muito mais colateralizado, robusto e tranquilo do que em 2023”. A estratégia prioriza empréstimos lastreados em bens, recebíveis ou fundos garantidores, reduzindo a exposição a créditos pessoais sem garantia. Dentro do segmento de micro, pequenas e médias empresas, o capital de giro sem garantia encolheu 7,2% em 12 meses, ao passo que linhas garantidas pelo FGI e FGO avançaram 31,5%.
O executivo ressaltou ainda que, desde o fim de 2023, o estoque de crédito avançou 31% enquanto o custo nominal do crédito permaneceu estável, indicando maior eficiência na originação de operações cobertas por garantias.
Análises divergentes apontam desafios para 2027
Os relatórios publicados após o balanço mostram percepção divergente entre casas de análise. O BTG Pactual manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 21,00, destacando a “deterioração da qualidade do crédito” como principal motivo de cautela. Para o banco de investimento, a combinação de desaceleração no crédito, maior provisão e cobertura reduzida pode limitar o crescimento dos lucros e criar uma base comparativa desafiadora para 2027.

O Itaú BBA também adotou tom conservador. Embora considere os resultados em linha com as estimativas, a instituição citou receitas ajustadas ao risco mais fracas e desempenho abaixo do esperado na operação de seguros. O preço-alvo para 2027 foi mantido em R$ 22,00, com potencial de valorização de 8,8%, mas depende de melhora na qualidade do crédito.
Na direção oposta, o Banco Safra reiterou recomendação de compra e definiu preço-alvo igualmente em R$ 22,00, vislumbrando potencial de alta de 9%. Os analistas Daniel Vaz e Rafael Nobre argumentam que o Bradesco pode estar resolvendo os problemas de crédito “mais rápido do que o mercado precifica”.
Contexto macroeconômico adiciona variáveis de risco
A mudança no perfil da carteira acontece em um ambiente de atividade doméstica moderada, taxa Selic ainda em dois dígitos e mercado de trabalho com sinais de desaceleração. Esses fatores elevam o custo de oportunidade para novos empréstimos e pressionam a renda disponível das famílias, contexto que explica o recuo de linhas de consumo não garantidas.
Além disso, a menor presença de estímulos fiscais e a expectativa de redução gradual dos juros apenas a partir de 2027 limitam uma retomada mais forte do crédito bancário. Para instituições que dependem de margens financeiras elevadas, a gestão do risco de inadimplência torna-se determinante na preservação do resultado.
Conclusão técnica
A administração do Bradesco reforça a qualidade da carteira ao ampliar a utilização de garantias e controlar o custo de crédito, estratégia que oferece amortecedores contra a alta da inadimplência. Entretanto, o mercado segue atento à relação entre provisões crescentes e receitas que avançam em ritmo mais lento. A trajetória dos indicadores de atraso e a evolução do mix de produtos serão monitoradas nos próximos trimestres para confirmar se a abordagem mais colateralizada será suficiente para sustentar o lucro em 2027 diante de um cenário econômico ainda restritivo.



