Investidores podem enfrentar um ciclo prolongado de juros altos caso Luiz Inácio Lula da Silva vença a disputa presidencial de 2026, segundo avaliação de Juliano Custódio, CEO da EQI Investimentos; o executivo projeta retorno favorecido para aplicações de renda fixa, enquanto ativos de risco dependerão de sinais concretos de ajuste fiscal.
Cenário de política monetária sob análise da EQI
Faltando poucos dias para o segundo turno, Juliano Custódio aponta que as curvas de juros futuros já embutem a percepção de um possível aperto fiscal, mas permanecem sensíveis ao resultado das urnas. De acordo com dados da B3 citados pelo executivo, o DI jan/30 recuou cerca de 200 pontos-base desde o primeiro turno, refletindo apostas em menor risco fiscal. A manutenção ou reversão desse movimento, contudo, está diretamente atrelada ao perfil do próximo governo.
Para Custódio, uma vitória de Lula (PT) tende a reduzir a velocidade de queda da Selic, preservando o patamar de dois dígitos por um período mais longo. O cenário, explica ele, “beneficia o rentismo” ao ampliar o retorno real de títulos prefixados e indexados à inflação. Já um governo de Flávio Bolsonaro (PL) poderia acelerar o alívio monetário, desde que apresente um cronograma factível de contenção de despesas.
Renda fixa em evidência; Bolsa aguarda gatilhos
A carteira recomendada da EQI para o curto prazo reforçou a exposição a títulos públicos prefixados, NTN-B de médio prazo e debêntures incentivadas, todos sensíveis a expectativas de recuo dos juros. Segundo cálculos internos, a rentabilidade das NTN-B 2035 subiu 12,4 % no acumulado de 2026 até outubro, superando o Ibovespa, que avança apenas 4,1 % no mesmo intervalo.
No mercado acionário, Custódio identifica “descontos expressivos” em setores como varejo e construção civil, penalizados pelo custo de capital elevado. Empresas com dívida indexada à Selic registram queda média de 18 % no lucro líquido nos últimos quatro trimestres, conforme levantamento da corretora. Uma simples redução de 100 pontos-base na taxa básica, projeta ele, poderia adicionar até R$ 25 bilhões ao resultado agregado dessas companhias.
Equilíbrio fiscal como vetor decisivo
A discussão sobre sustentabilidade da dívida pública continua central. O programa de Lula foca no estímulo ao crescimento para estabilizar o indicador dívida/PIB, hoje em 78,1 %. Já Flávio Bolsonaro defende um corte gradual de subsídios e revisão de despesas obrigatórias, mas ainda não detalhou metas anuais. Sem avanços concretos, alerta Custódio, “o mercado voltará a exigir prêmios mais altos”, travando a queda dos juros e atrasando a retomada da atividade.
O executivo ressalta que qualquer governo terá “custo político elevado” para implementar reformas tributária e administrativa. Caso o próximo presidente conquiste base ampla no Congresso e adote âncoras fiscais claras, a EQI vê espaço para a Selic recuar para o intervalo de 8 % a 8,5 % ao longo de 2027.

Estratégias recomendadas pela EQI para diferentes cenários
Cenário Lula: foco em duration curta a média na renda fixa, alocações em LCI/LCA isentas e fundos de crédito high grade. Custódio também sugere exposição limitada a ações de concessões públicas, que se beneficiam de contratos indexados à inflação.
Cenário Flávio Bolsonaro: aumento gradual de participação em small caps cíclicas e fundos imobiliários de tijolo, além de alongamento nos vencimentos dos títulos prefixados. A corretora mantém, entretanto, posição defensiva em tesouro IPCA+ para proteger contra eventual frustração de reformas.
Conclusão Técnica
A análise da EQI converge para um ponto crucial: a trajetória dos juros continuará ditando a rentabilidade dos principais ativos brasileiros em 2027. Caso o novo governo apresente credibilidade fiscal, haverá espaço para migração de capital da renda fixa para a economia real. Na ausência de reformas, a perspectiva é de prolongamento do ciclo de Selic elevada, reforçando o apelo do rentismo e limitando a valorização da bolsa. Investidores, portanto, devem monitorar os primeiros sinais de política econômica pós-eleição antes de promover ajustes significativos em suas carteiras.



