Gilson Finkelsztain, recém-nomeado CEO do Santander Brasil, confirmou que o banco aceitará menor rentabilidade no curto prazo para mitigar riscos e construir uma trajetória sustentável; a meta é conduzir o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) a patamares superiores a 20% mesmo após a queda de 28% no lucro recorrente do 3T26.
Queda nos resultados expõe desafios de curto prazo
O Santander Brasil (SANB11) reportou R$ 2,9 bilhões em lucro líquido recorrente no terceiro trimestre de 2026, ante R$ 4,0 bilhões um ano antes. O ROE recuou para 11,9%, distanciando-se do objetivo histórico do banco e do patamar de pares domésticos. Segundo Finkelsztain, o desempenho reflete:
- Contexto macroeconômico de juros elevados e aumento do endividamento de famílias e empresas;
- Processo de rebalanceamento da carteira, com redução deliberada da exposição a perfis de maior risco;
- Pressão sobre o spread com clientes, que cedeu 33 pontos-base, para 9,70%.
Para o diretor financeiro Carlos Muñiz, a correção de rota implica substituição gradual de operações antigas – com spreads mais altos – por novos ativos alinhados ao risco atual, pressionando a margem financeira média.
Rebalanceamento de carteira reduz risco e margens
O banco direciona capital a segmentos com menor probabilidade de inadimplência. Entre os principais movimentos destacam-se:
- Pessoa física: ênfase em operações garantidas, com maior possibilidade de rotação do balanço;
- Grandes empresas: alocação de capital em estruturas customizadas, como project finance e soluções de mercado de capitais;
- PMEs: foco em serviços de gestão de caixa e adquirência, usando o crédito como instrumento de relacionamento, não como motor primário de crescimento.
A estratégia busca fortalecer a saúde da carteira para atravessar um cenário em que a inadimplência ainda pressiona agronegócio e pequenas empresas. Caso os juros permaneçam elevados por mais tempo, a menor exposição a segmentos de risco tende a preservar o balanço, aponta Muñiz.
Alocação de capital e expansão em nichos de alta renda
Para reconquistar rentabilidade robusta, o Santander pretende ampliar presença em nichos historicamente mais lucrativos:

- Clientes de alta renda – aproveitando programas como o Santander Rewards, que já contabiliza 700 mil participantes e gerou aumento superior a 10% no gasto médio desses correntistas;
- Banco de investimento e atacado – expansão de operações de mercado de capitais, fusões e aquisições e tesouraria estruturada;
- Segmento corporativo – captura de participação em grandes empresas por meio de soluções integradas de financiamento e serviços de câmbio.
Finkelsztain afirma que a estratégia envolve “inteligência de rotação de ativos”, ou seja, realocação contínua de capital para operações de maior retorno ajustado ao risco, sem comprometer o perfil conservador da nova carteira.
Disciplina de custos sustenta margem operacional
No 3T26, as despesas administrativas cresceram abaixo da inflação, sustentando o índice de eficiência em 38,8%. A gestão busca:
- Reduzir redundâncias operacionais e simplificar processos para liberar recursos destinados a investimentos em tecnologia;
- Manter crescimento orgânico da base de clientes – que atingiu 76,9 milhões, avanço de 6% em 12 meses – com ênfase em elevar share of wallet em vez de agregar correntistas de baixa rentabilidade;
- Endurecer critérios de renegociação, exigindo entrada em dinheiro ou garantias adicionais, para evitar postergação de perdas.
A administração reforça que essa combinação de eficiência operacional e prudência no crédito é indispensável para sustentar a trajetória de ROE desejada.
Conclusão técnica
O plano apresentado por Gilson Finkelsztain equilibra cautela e ambição: ao reconhecer o impacto de curto prazo na lucratividade, o banco consolida um portfólio menos volátil, amplia atuação em segmentos de maior valor agregado e preserva disciplina de custos. A meta de ROE superior a 20% dependerá da materialização de três vetores: estabilização macroeconômica com possível queda de juros, execução consistente da rotação de ativos para nichos de alto retorno e manutenção da inadimplência sob controle. A convergência desses fatores definirá o ritmo de recuperação dos indicadores financeiros ao longo dos próximos trimestres.



