O predomínio de ativos brasileiros nas carteiras domésticas volta ao centro do debate nesta semana de 2 a 6 de novembro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) decide a taxa Selic, o payroll dos Estados Unidos será divulgado e os norte-americanos irão às urnas para renovar o Congresso, testando a resiliência dos portfólios ancorados apenas em real.
Raízes e dimensão do viés doméstico
Estudos de comportamento financeiro classificam como home bias a preferência do investidor por ativos do próprio país. No Brasil, essa tendência atinge proporções elevadas. Dados de plataformas de custódia apontam que o investidor pessoa física mantém, em média, cerca de 80% da alocação em instrumentos locais. Entre os norte-americanos, a fatia aplicada no exterior ronda 20%, mesmo com acesso ao maior mercado de capitais do mundo.
A combinação de taxas de juros historicamente altas, custo cambial e familiaridade com companhias nacionais reforça a concentração. Porém, analistas lembram que tais fatores não diminuem a exposição a choques domésticos. A recente volatilidade observada logo após a eleição presidencial de 2026, quando o Ibovespa recuou mais de 6% em um único pregão e o dólar superou R$ 6,00 intraday, exemplifica o risco de depender exclusivamente de ativos em real.
Riscos locais exigem proteção em moeda forte
Choques políticos e fiscais são citados pela indústria de fundos como principais gatilhos de stress no preço dos ativos brasileiros. A vitória de Lula em 2022 e a reeleição agora em 2026 ampliaram a percepção de incerteza sobre a trajetória fiscal e a independência do Banco Central. Para mitigar essas variáveis, estrategistas sugerem a alocação de parte do portfólio em ativos atrelados a dólar, euro ou outras moedas conversíveis.
Entre os instrumentos mais utilizados estão ETFs internacionais listados na B3, BDRs de companhias globais, fundos multimercado com mandato externo e contas em corretoras estrangeiras. A exposição cambial, além de servir como hedge em cenários de depreciação do real, possibilita o acesso a setores menos representados na bolsa local, como tecnologia de ponta e saúde avançada.
Agenda macro: Copom, payroll e eleições americanas
O mercado brasileiro permanece fechado nesta segunda-feira, 2 de novembro, devido ao feriado de Finados, mas a semana será densa em eventos capazes de alterar preços de ativos.

Quarta-feira, 4/11 — Copom: A expectativa majoritária passou de corte de 0,25 ponto percentual para manutenção da Selic em 10,75% ao ano, refletindo a pressão dos juros futuros e a deterioração do cenário fiscal. Caso o comitê opte por estabilidade, analistas projetam revisão de curvas e possível valorização de NTN-Bs curtas.
Sexta-feira, 6/11 — Payroll: O Bureau of Labor Statistics divulga o relatório de emprego de outubro. Projeções consensuais apontam criação líquida de 180 mil vagas e taxa de desemprego em 3,9%. Surpresas nos salários médios por hora podem redefinir as probabilidades de novo aperto monetário pelo Federal Reserve.
Terça-feira, 3/11 — Midterms nos EUA: Eleitores escolherão todos os 435 assentos da Câmara, 34 das 100 cadeiras do Senado e 36 governadores estaduais. A correlação entre composição do Congresso e capacidade do governo Donald Trump de aprovar estímulos fiscais tende a influenciar rendimentos dos Treasuries e, por extensão, moedas emergentes.
Conclusão técnica
A semana concentra eventos internos e externos que podem acentuar a volatilidade do real e dos ativos de renda fixa. Diante desse quadro, a sobre-exposição a papéis brasileiros — estimada em 80% das carteiras domésticas — amplia o risco de perda relativa caso ocorram choques negativos no ambiente político ou na condução da política monetária. A manutenção ou não da Selic, a leitura do payroll e o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA devem orientar decisões táticas de curto prazo, mas não substituem a necessidade estrutural de diversificação internacional. Ao final dos anúncios, gestores monitorarão a curva de juros, o comportamento do dólar e a reação dos índices globais para reavaliar níveis de hedge cambial e participação em ativos estrangeiros.



