XP Investimentos reduziu sua recomendação para a bolsa brasileira de compra para neutra após a retração de -10% registrada pelo Ibovespa em outubro, atribuindo a mudança à deterioração fiscal e à expectativa de juros elevados por período prolongado. O novo alvo projetado para o principal índice de ações do país é de 200 mil pontos no fim de 2027, o que significa possível valorização de 19% em relação ao patamar atual, porém semelhante à rentabilidade oferecida pela renda fixa.
Contexto macroeconômico pressiona o mercado acionário
Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, investidores passaram a precificar maior risco fiscal, resultando em significativa reavaliação dos ativos domésticos. Na moeda local, o Ibovespa recuou -10% em outubro; em dólares, a perda chegou a -14%. O cenário foi agravado pela perspectiva de manutenção da Selic em patamar elevado por mais tempo, estratégia considerada necessária para conter pressões inflacionárias.
No relatório distribuído nesta terça-feira, os estrategistas Fernando Ferreira, Raphael Figueiredo, Caio Souza e Antonio Mello descrevem a combinação de inflação persistente e juros altos como “historicamente o pior regime para retornos acionários” desde 2002, período em que o retorno real médio do índice foi de -17,5% ao ano.
Motivos para a revisão e novas projeções de lucro
Além do ambiente macro mais hostil, a equipe da XP identifica riscos de redução nas estimativas de lucro do consenso para 2027. No cenário mais pessimista, a corretora trabalha com retração de -13% no lucro líquido agregado das companhias que compõem o Ibovespa já em 2027, movimento que elevaria o múltiplo P/L projetado de 8,2x para 9,3x, patamar próximo da média histórica de 10x.
O Índice de Sentimento XP, termômetro que monitora posicionamento de investidores, corrobora a visão mais defensiva. Depois de atingir otimismo extremo de 100 pontos em 9 de outubro — na esteira do primeiro turno —, recuou para 18 pontos com o resultado final das eleições, sinalizando ambiente sem gatilhos imediatos para retomada de fluxo comprador.
Valuation atrativo não elimina cautela setorial
Embora o desconto de preço seja relevante — o múltiplo P/L do índice caiu para 8,2x, inferior à média dos últimos dez anos —, a XP elenca três fundamentos para sustentar postura neutra:

- Inflação e juros em alta: combinação historicamente adversa para o desempenho de empresas cíclicas.
- Desaceleração econômica: possibilidade de queda nos lucros corporativos ao longo de 2027.
- Sentimento pessimista: ausência de catalisadores de curto prazo para mudança de humor dos investidores.
Nesse contexto, a corretora prioriza empresas de alta qualidade, com fluxo de caixa previsível, baixa alavancagem e, preferencialmente, exposição ao dólar. Setores de saneamento, saúde, tecnologia e exportadoras figuram entre os favoritos.
As 10 ações selecionadas pela XP após a correção
Com base em critérios de valuation, qualidade de gestão e resiliência operacional, a XP Investimentos destacou dez companhias como oportunidades após a recente correção:
- Vitru (VTRU3) – Educação | Desempenho no mês: -22,2% | P/L 2027: 13,0x
- Rede D’Or (RDOR3) – Saúde | Desempenho no mês: -17,3% | P/L 2027: 11,6x
- Motiva (MOTV3) – Transportes | Desempenho no mês: -16,4% | P/L 2027: 9,2x
- Itaú (ITUB4) – Bancos | Desempenho no mês: -12,6% | P/L 2027: 8,1x
- Sabesp (SBSP3) – Saneamento | Desempenho no mês: -10,0% | P/L 2027: 10,3x
- Cury (CURY3) – Construção civil | Desempenho no mês: -6,6% | P/L 2027: 5,8x
- TOTVS (TOTS3) – Tecnologia | Desempenho no mês: -4,3% | P/L 2027: 16,7x
- WEG (WEGE3) – Bens de capital | Desempenho no mês: -2,2% | P/L 2027: 28,1x
- Embraer (EMBJ3) – Aeroespacial | Desempenho no mês: +2,4% | P/L 2027: 20,3x
- Petrobras (PETR4) – Óleo & Gás | Desempenho no mês: +7,3% | P/L 2027: 7,0x
Os estrategistas classificam essas empresas em três grupos: (i) papéis com valuation significativamente mais atrativo após a queda; (ii) negócios de alta qualidade capazes de sustentar margens em ciclo adverso; e (iii) ativos defensivos com receita dolarizada, que tendem a se beneficiar de movimentos de risk-off doméstico.
Conclusão técnica e próximos passos
A reavaliação conduzida pela XP Investimentos reflete deterioração no equilíbrio entre risco e retorno da bolsa brasileira diante de incertezas fiscais, inflação resistente e custos de capital elevados. Ainda que o desconto nos múltiplos tenha aberto espaço para oportunidades selecionadas, a probabilidade de revisão negativa de lucros e o sentimento pessimista recomendam posição prudente no curto prazo. Para investidores com horizonte de longo prazo, a casa sugere foco em companhias de qualidade comprovada, boa geração de caixa e potencial de proteção cambial, monitorando de perto próximos indicadores de atividade econômica, trajetória da dívida pública e decisões de política monetária que possam alterar o cenário projetado para 2027.



