Mercado revê posições: gestores trocam bolsa por dólar diante de incertezas pré-Copom

Grandes gestoras multimercados reduziram drasticamente a exposição à renda variável brasileira e ampliaram posições defensivas em dólar nas semanas que sucederam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o ajuste, captado por pesquisa da XP com 20 casas, ocorre às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 4 de novembro, em resposta à reprecificação dos ativos locais e à expectativa majoritária de manutenção da taxa Selic.

Reversão do “kit Brasil” em números

Até meados de outubro, o chamado “kit Brasil” — combinação de juros em queda, bolsa em alta e real fortalecido — predominava nas alocações dos fundos multimercados. O cenário se inverteu após um pregão de forte correção que levou o Ibovespa a recuar 13,9% em um único dia, impulsionou o dólar em torno de 8% e abriu mais de 250 pontos-base na curva de juros futuros.

Segundo a pesquisa, a participação de gestores com posições compradas em ações brasileiras despencou de 70% em setembro para 25% no início de novembro. Ao mesmo tempo, as apostas na desvalorização do índice subiram para 30%, ultrapassando, pela primeira vez no ano, o grupo de otimistas. A retração reflete receios quanto à continuidade das reformas fiscais, ao potencial de crescimento e à trajetória inflacionária.

Esse movimento de desalavancagem ocorre em paralelo a um fortalecimento das estratégias cambiais. Gestores que mantinham posições compradas em dólar variavam de 36% antes das eleições para 70% atualmente, enquanto a aposta na apreciação do real caiu de 75% para 21%. No lado oposto, posições vendidas na moeda brasileira avançaram para 79%, indicando proteção expressiva contra choques domésticos.

Copom: de cortes esperados à manutenção da Selic

A mudança de postura também se verifica nas projeções para a política monetária. No início do semestre, a maioria dos gestores trabalhava com a hipótese de cortes adicionais de 0,25 ponto percentual na Selic. O levantamento mais recente mostra que 75% apostam em taxa estável, ao passo que apenas 25% mantêm a previsão de redução. A guinada reflete a percepção de que pressões fiscais e riscos de realinhamento de preços podem limitar o espaço para afrouxamento monetário.

As expectativas macroeconômicas corroboram o diagnóstico de cautela. A projeção de inflação para 2026 subiu de 4,97% para 5,24%, superando o centro da meta vigente. Já a estimativa para o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) recuou de 1,78% para 1,68%, sinalizando menor tração da atividade em meio ao aperto das condições financeiras. Para os gestores consultados, o risco fiscal — intensificado pela elevação do prêmio de crédito soberano — permanece o principal vetor de volatilidade.

Com 95% das casas classificando o cenário para o Brasil como negativo, o pessimismo alcança o maior patamar da série iniciada pela XP. Nenhum participante declarou visão positiva para os próximos meses, e a maioria indica disposição de manter posição neutra ou subalocada em ativos domésticos até que surjam sinais claros sobre a condução econômica no novo mandato.

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Dólar assume protagonismo nas carteiras

A preferência pelo dólar, além de atuar como hedge natural contra turbulências internas, também se beneficia do diferencial de juros entre Estados Unidos e Brasil. Embora a Selic permaneça em 10,75% ao ano, o Federal Reserve mantém os Fed Funds em patamar elevado, reduzindo o carrego pró-real observado no início de 2026. Esse ambiente diminui o custo de oportunidade para posições compradas na divisa norte-americana.

No campo tático, fundos adotam estruturas que combinam long em dólar futuro e put options sobre Ibovespa, preservando capital em caso de nova rodada de aversão a risco. Há também gestores migrando parte dos recursos para bolsas globais, especialmente Estados Unidos e Ásia, onde a correlação com o ciclo político brasileiro é limitada.

Apesar do viés defensivo, a pesquisa da XP ressalta que os ajustes não configuram, necessariamente, uma aposta direcional em crise prolongada. Trata-se de uma resposta pragmática à volatilidade pós-eleitoral, que pode ser revista caso o governo esclareça a composição da equipe econômica e detalhe medidas para conter o avanço da dívida pública.

Conclusão Técnica

O recuo nas posições em bolsa e a corrida por proteção cambial evidenciam que o mercado optou por reduzir risco doméstico enquanto aguarda definições sobre política fiscal e trajetória da Selic. A decisão do Copom desta quarta-feira, combinada à nomeação dos ministros da Fazenda e do Planejamento, constitui o próximo gatilho para eventual reprecificação dos ativos. Até lá, prevalece a busca por liquidez e a priorização do dólar como escudo contra incertezas, mantendo o fluxo de capital estrangeiro e local em compasso de espera.

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