O Banco de Brasília (BRB) requereu ao presidente do Supremo Tribunal Federal a liberação de R$ 2,2 bilhões em favor da instituição, valor referente ao patrimônio bloqueado de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, apontado como articulador de um esquema que transferiu carteiras de créditos inexistentes avaliadas em R$ 12,2 bilhões para o banco público.
Origem das suspeitas e montante das operações irregulares
De acordo com a Procuradoria-Geral do Distrito Federal, as investigações identificaram que o grupo liderado por Daniel Vorcaro negociou, entre 2024 e 2026, carteiras de crédito sem lastro que totalizam R$ 12,2 bilhões. A operação fraudulenta teria sido viabilizada por meio de sucessivas cessões de direitos creditórios ao BRB, mascarando a ausência de ativos reais por intermédio de documentação contábil falsificada.
O valor de R$ 2,2 bilhões requerido agora corresponde ao patrimônio congelado do patriarca da família, Henrique Vorcaro, incluído na investigação como garantidor financeiro do esquema. Esse montante foi estimado a partir de relatórios de patrimônio apresentados à Justiça Federal e de bloqueios efetivados pelo Banco Central.
Participação de executivos e benefícios indevidos
O inquérito detalha que a rede de influência sobre o BRB foi assegurada após o pagamento de vantagens ilícitas a executivos da instituição pública. Entre os citados, destaca-se o então presidente Paulo Henrique Costa, que teria recebido benefícios imobiliários avaliados em R$ 146 milhões. Imóveis registrados em nome dos Vorcaro constam como possivelmente destinados ao dirigente como contrapartida pelo aval dado às operações.
Documentos anexados aos autos revelam transações realizadas em cartórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal, indicando a aquisição de dez propriedades de alto padrão entre julho de 2024 e agosto de 2025. A triangulação patrimonial contemplava empresas de fachada ligadas ao Banco Master, situação que, segundo o Ministério Público Federal, reforça a tese de lavagem de dinheiro.
Reflexos financeiros para o Distrito Federal e acionistas
O Distrito Federal, acionista controlador do BRB com participação próxima de 76 %, alega prejuízos diretos. A petição protocolada afirma que a fraude provocou depreciação no valor de mercado das ações preferenciais (BSLI4) e comprometeu a distribuição de dividendos, reduzindo a expectativa de repasses ao Tesouro distrital para 2027.
Relatórios internos do banco mostram que, desde a revelação do caso em novembro de 2025, a provisão para perdas em créditos duvidosos subiu de 3,1 % para 6,4 % da carteira total, consumindo margem de solvência e elevando a necessidade de capital regulatório. A perspetiva de aporte público deixou em alerta órgãos de controle locais e o Tribunal de Contas do Distrito Federal.

Interferência do Banco Central e anulação da tentativa de aquisição
Em setembro de 2026, o BRB comunicou intenção de adquirir o Banco Master, movimento estratégico que acabou anulado duas semanas depois pelo Banco Central devido às suspeitas de irregularidades. A autarquia baseou-se em laudos de supervisão que apontavam inconsistências patrimoniais, ausência de lastro em 35 % das carteiras de crédito do Master e risco sistêmico para o banco público.
Com a operação de compra cancelada, o Banco Central acionou mecanismos de intervenção nas atividades do Master, incluindo a nomeação de administradores temporários, bloqueio de contas dos controladores e requisição de relatórios diários de liquidez. Paralelamente, o Conselho de Administração do BRB aprovou a criação de um comitê de crise para monitorar impactos regulatórios.
Andamento jurídico no Supremo Tribunal Federal
O pedido de indenização foi encaminhado ao ministro Edson Fachin, que concentra as ações envolvendo fraudes bancárias de grande porte no STF. A Procuradoria-Geral do Distrito Federal requereu prioridade na tramitação, citando o risco de prescrição de parte dos atos ilícitos e o potencial de danos adicionais às finanças públicas.
Entre as medidas cautelares solicitadas estão: manutenção do bloqueio sobre ativos dos investigados, proibição de movimentação de bens imóveis e compartilhamento de dados bancários com a Receita Federal. Fachin deve decidir, nos próximos dias, se referenda as solicitações e se autoriza a liberação imediata dos R$ 2,2 bilhões ao BRB.
Conclusão Técnica
A demanda do BRB por R$ 2,2 bilhões representa tentativa de compensar perdas decorrentes da cessão fraudulenta de créditos inexistentes praticada pelo Banco Master. A ação concentra-se no patrimônio bloqueado de Henrique Vorcaro, considerado coautor financeiro do esquema. O processo tramita sob relatoria do ministro Edson Fachin, que avaliará a pertinência de conceder a indenização e de manter as restrições patrimoniais já impostas. Em paralelo, o Banco Central e órgãos de controle acompanham a saúde financeira do BRB para prevenir necessidade de injeção de recursos públicos, enquanto o Ministério Público Federal conduz diligências adicionais que podem resultar em novas denúncias criminais contra executivos envolvidos.



