Alta dos juros e dólar forte castigam varejo e construção civil na B3, aponta EQI Research

Escalada dos juros futuros, valorização de 7,5% do dólar ante o real desde as eleições e crescente incerteza fiscal derrubaram os preços das ações brasileiras, com impactos mais severos sobre varejo e construção civil, de acordo com relatório da EQI Research.

Pressão macroeconômica e reação imediata do mercado

No primeiro pregão após o resultado eleitoral, o Ibovespa chegou a recuar 17% na abertura e encerrou o dia com queda de 13,88%, reflexo do temor de expansão de gastos públicos e consequente deterioração fiscal. Paralelamente, a curva de juros futuros avançou cerca de 2,1 p.p., elevando o custo de capital para empresas e o custo de crédito para consumidores.

Segundo a EQI, cada ponto percentual adicional de juros reduz o valor presente dos fluxos de caixa futuros, afetando com maior intensidade companhias cuja geração de lucro depende de alavancagem e crescimento robusto. Esse efeito foi potencializado pela disparada da divisa norte-americana, que pressiona margens de negócios expostos a insumos importados e enfraquece o poder de compra doméstico.

Setores mais penalizados: varejo e construção civil

O levantamento destaca que o índice IMOB, representativo de imobiliário e construção civil, acumulou retração de 33,6% no período pós-eleitoral. Enquanto isso, o indicador de consumo e varejo cedeu 28,6%. Tais segmentos são intensivos em financiamento de longo prazo e dependem diretamente da renda das famílias, fatores altamente sensíveis a juros mais altos.

Em contraste, o índice de materiais básicos recuou apenas 3,4%. Empresas exportadoras, turbinadas por receitas em moeda forte, dispõem de proteção natural quando a taxa de câmbio se desvaloriza. Esse colchão cambial atenuou a pressão vendedora em nomes ligados a metais e papel & celulose, casos de Vale e Klabin, a última com valorização de 3,15% no período analisado.

Já o índice financeiro registrou queda de 26,3%, em linha com a deterioração da percepção de risco soberano e possível aumento de inadimplência. Bancos são historicamente sensíveis à curva longa de juros, pois seu custo de captação se ajusta mais rápido que o rendimento de carteira.

Efeitos sobre carteiras recomendadas e métricas de valuation

A turbulência também afetou a carteira Buy & Hold acompanhada pela EQI, que encolheu 8,36% em outubro, desempenho inferior ao recuo de 5,70% do Ibovespa, porém melhor que a queda de 10,71% do índice de small caps. O principal suporte positivo veio da Petrobras (PETR4), com alta de 7,47%, adicionando 0,75 p.p. ao portfólio.

Alta dos juros e dólar forte castigam varejo e construção civil na B3, aponta EQI Research - Imagem do artigo original

Pelo lado negativo, Equatorial (EQTL3) subtraiu 1,65 p.p., Localiza (RENT3) retirou 1,20 p.p. e Allos (ALOS3) impactou em 1,16 p.p.. O relatório divulgado não detalha compras, vendas ou rebalanceamentos realizados no intervalo.

Apesar da retração expressiva das cotações, o múltiplo preço/lucro (P/L) projetado para os próximos 12 meses do Ibovespa foi estimado em 7,9x, patamar próximo a um desvio-padrão abaixo da média histórica de 20 anos. Todavia, a EQI alerta que a composição do índice, hoje mais concentrada em empresas maduras — tradicionalmente negociadas a múltiplos menores —, pode distorcer a leitura de aparente barata geral do mercado.

Conclusão técnica

Os dados da EQI Research confirmam que a alta de juros e a valorização cambial pós-eleitoral criaram um ambiente adverso para companhias dependentes do ciclo doméstico e de crédito, notadamente varejo e construção civil. Enquanto exportadoras se beneficiam da proteção natural do dólar, empresas voltadas ao consumo interno enfrentam compressão de margens e desaceleração de demanda.

Para os próximos trimestres, a trajetória dos juros futuros e a sinalização fiscal do novo governo serão vetores-chave na precificação dos ativos da B3. Caso o risco fiscal se agrave, o movimento defensivo tende a persistir, mantendo exportadoras e setores menos alavancados como destinos preferenciais de capital. Em cenário alternativo de ancoragem das expectativas e alívio na curva longa, setores domésticos podem recuperar parte das perdas, mas a visibilidade permanece limitada até que ocorram definições concretas sobre política econômica e orçamento federal.

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