O Banco do Brasil reportou retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 7,3% no primeiro trimestre de 2026, o patamar mais baixo desde 2017, admitiu que atravessa a fase mais crítica do atual ciclo de crédito e apresentou medidas para restabelecer a rentabilidade entre 9% e 11% ainda neste ano.
Pressão sobre margens e aumento do custo de risco
A queda no ROE concentrou as atenções porque consolida múltiplos vetores de pressão: margens financeiras comprimidas, inadimplência elevada e reforço de provisões. O vice-presidente financeiro e de relações com investidores, Geovanne Tobias, atribuiu o recuo ao “momento de travessia” originado por decisões de crédito tomadas em anos anteriores e por um ambiente macroeconômico mais restritivo.
No trimestre, o custo do risco avançou, refletindo sobretudo a deterioração de operações direcionadas ao agronegócio. O segmento, historicamente responsável por boa parte da carteira do banco, respondeu por atrasos táticos de pagamento, movimento que elevou a necessidade de provisões e reduziu a margem de contribuição do agronegócio para o resultado consolidado.
Enquanto isso, sinais de contágio começaram a surgir na carteira de pessoa física, especialmente em linhas sem garantias como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. De acordo com Felipe Prince, vice-presidente de riscos, as concessões nessas modalidades passaram a ser mais seletivas, concentrando-se em clientes com maior capacidade de pagamento.
Agronegócio: carteira legada ainda pesa no balanço
O banco explicou que a atual deterioração está vinculada, em grande parte, a uma carteira herdada, originada antes da implementação de uma nova matriz de risco. Apenas 25% da carteira agro já segue os parâmetros mais rigorosos de análise atual. Esse descompasso prolonga a pressão sobre os indicadores de inadimplência, que poderão permanecer acima da média até, pelo menos, 2027 em operações de ciclo longo.
Um dos fenômenos mais observados é a pontualização – métrica que mede pagamentos na data de vencimento. O índice melhorou de 70% para 74%, mas segue distante do nível considerado saudável pela instituição. Produtores optam por postergar pagamentos na expectativa de condições mais favoráveis de preço, liquidez ou comercialização de commodities.
Para mitigar perdas, o Banco do Brasil intensificou a execução de garantias, sobretudo via alienação fiduciária, mecanismo que acelera a recuperação de crédito e protege a instituição em casos de pedidos de recuperação judicial. Executivos revelaram que, apenas nos três primeiros meses de 2026, o volume de execuções superou o contabilizado em todo o primeiro semestre do ano anterior.
Pessoa física: seletividade maior e renegociação em massa
Na carteira de pessoa física, a prioridade imediata é conter a inadimplência. O banco reduziu o apetite em operações de maior risco e reforçou ofertas em produtos de menor volatilidade, como crédito consignado, que mantém participação próxima de 25% no setor público. Além disso, a modalidade crédito ao trabalhador ganhou tração, e a meta é alcançar 20% de participação de mercado.

Paralelamente, programas de renegociação estão em expansão. O Desenrola 2.0, política pública federal, estimulou iniciativa complementar batizada de Desenrola BB. Em dez dias de operação, cerca de 90 mil contratos foram reestruturados, somando R$ 500 milhões em saldo renegociado. A administração acredita que esse movimento aumentará a capacidade de consumo das famílias e reduzirá a pressão sobre provisões no segundo semestre.
Captação externa e cenário macro global
A diretoria avalia que, apesar do ambiente doméstico desafiador, há um apetite crescente de investidores estrangeiros por ativos brasileiros. O vice-presidente de riscos citou uma demanda reprimida que pode se materializar a partir do segundo trimestre, desde que prevaleça maior previsibilidade geopolítica. Caso essa liquidez se confirme, o banco pretende ampliar emissões de títulos no exterior e fortalecer o capital, criando “amortecedores” adicionais para o ciclo de crédito.
Projetos de monitoramento climático também avançam. Sensores e modelos proprietários auxiliam na identificação de microclimas afetados por El Niño, permitindo ajustes na originação de crédito rural e antecipação de riscos regionais. A instituição reforça que, historicamente, a produtividade média do país manteve-se resiliente em ciclos climáticos adversos, mas eventos extremos em áreas específicas exigem vigilância constante.
Política de dividendos e expectativa de rentabilidade
Para reforçar provisões e preservar a solidez do balanço, o Banco do Brasil indicou que dividendos extraordinários permanecem fora do radar no curto prazo. A meta oficial de rentabilidade permanece entre 9% e 11% para 2026, trajetória descrita pela administração como “não linear” e possivelmente em formato de W – com oscilações entre trimestres.
Os executivos sustentam que o primeiro trimestre de 2026 marcou o ponto de maior estresse do ciclo atual. A partir do segundo semestre, operações originadas sob critérios mais rígidos ganharão peso relativo no portfólio, suavizando o custo de risco e ampliando margens financeiras.
Conclusão técnica
Os resultados do primeiro trimestre confirmam o Banco do Brasil em estágio avançado de ajuste de carteira, com ROE em 7,3% e inadimplência pressionada por fatores setoriais e macroeconômicos. A administração aposta em três pilares para reverter o quadro: execução de garantias no agronegócio, seletividade agressiva na pessoa física e captação de recursos externos para reforço de capital. Se a estratégia surtir efeito e as condições externas permanecerem favoráveis, a instituição projeta recuperar a rentabilidade para até 11% em 2026, restabelecendo o patamar histórico de retorno sem comprometer a robustez do balanço.



