Brasil concentra 62% do capital de fusões e aquisições na América Latina em 2026, apesar da queda no número de operações

O mercado latino-americano de fusões e aquisições registrou desaceleração em 2026, mas o Brasil manteve protagonismo ao absorver US$ 49,19 bilhões, o equivalente a 62% do valor total movimentado na região, mesmo com redução de 31% na quantidade de negócios.

Cenário regional: retração de volumes e seletividade crescente

Levantamento da TTR Data indica que a América Latina contabilizou 1.720 transações entre janeiro e setembro de 2026, movimentando US$ 78,8 bilhões. O recuo de 26% em relação ao mesmo intervalo de 2025 evidencia maior cautela de compradores diante de juros elevados, volatilidade cambial e incertezas políticas em economias-chave. A retração não se limitou ao número de operações; múltiplos de avaliação também apresentaram ajuste, refletindo percepção mais conservadora sobre crescimento futuro e custos de capital.

Nesse ambiente, investidores passaram a adotar postura seletiva, priorizando alvos com fluxo de caixa resiliente, exposição a setores defensivos e governança consolidada. A dinâmica beneficia empresas capazes de demonstrar geração consistente de valor, posicionando-se como ativos preferenciais para aportes estratégicos ou financeiros.

Desempenho brasileiro: menos negócios, mais capital

No Brasil, foram identificadas 968 operações até o terceiro trimestre, frente a 1.403 no mesmo período de 2025. Apesar da contração, o montante financeiro avançou na mesma proporção, alcançando US$ 49,19 bilhões. O resultado reforça a atratividade doméstica em segmentos como:

  • Energia renovável, impulsionada por metas de descarbonização e demanda por infraestrutura limpa;
  • Saúde, beneficiada pelo envelhecimento populacional e consolidações regionais;
  • Tecnologia, com startups maduras atraindo capital de crescimento e aquisições por incumbentes.

O aumento do volume pode ser atribuído a megadeals acima de US$ 1 bilhão que compensaram a baixa em transações de médio porte. Além disso, a desvalorização cambial ampliou o poder de compra de grupos estrangeiros, enquanto companhias locais recorreram a aquisições para capturar sinergias e expandir portfólio em um ambiente de competição acirrada.

Valuation como ferramenta estratégica em 2027

A avaliação de empresas ganhou relevância diante da menor liquidez. Segundo a TTR Data, a tendência de seletividade deve continuar em 2027, exigindo preparo minucioso das organizações que pretendem captar recursos, vender participação ou realizar combinações societárias. Três metodologias permanecem no centro das análises:

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  1. Fluxo de Caixa Descontado (FCD): estima projeções operacionais e desconta o risco sistêmico por meio de uma taxa que reflete custo médio ponderado de capital;
  2. Múltiplos de mercado: compara indicadores como EBITDA, receita líquida e lucro líquido com pares listados, isolando efeitos setoriais e de escala;
  3. Transações comparáveis: observa preços pagos em negócios recentes para calibrar prêmio de controle e sinergias potenciais.

Dominar essas métricas auxilia empresários a negociar com maior poder de barganha, identificar fatores que limitam valor e priorizar iniciativas que elevem retorno sobre o capital investido. Mesmo companhias de porte médio se beneficiam ao aplicar a disciplina de valuation para sucessão, reestruturação societária ou entrada de novos sócios.

Fatores que influenciarão a atividade de M&A

Diversos vetores irão moldar o fluxo de M&As no próximo ciclo:

  • Taxa de juros: eventual flexibilização monetária reduzirá custo de financiamento e poderá reaquecer operações alavancadas;
  • Câmbio: volatilidade do real impacta decisões de investidores externos, influenciando preço e timing das ofertas;
  • Agenda regulatória: atualizações em marcos como saneamento, energia e telecom podem gerar ondas de consolidação setorial;
  • ESG: pressões por práticas sustentáveis seguem reconfigurando portfólios, estimulando aquisições que acelerem transição verde.

Empresas posicionadas para atender exigências ambientais, sociais e de governança tendem a capturar múltiplos superiores, além de atrair fundos especializados em investimentos responsáveis.

Conclusão técnica

Os dados até o terceiro trimestre confirmam desaceleração generalizada na América Latina, mas evidenciam a capacidade do Brasil de concentrar capital mesmo em ciclos adversos. Para 2027, analistas projetam manutenção do ambiente seletivo, com validação rigorosa de ativos e preferência por negócios capazes de demonstrar fluxo de caixa robusto e práticas de governança avançadas. Companhias que compreenderem seu valor econômico de forma técnica, ajustarem métricas operacionais e alinharem estratégia ao apetite dos investidores estarão em melhor posição para aproveitar a próxima onda de fusões e aquisições na região.

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