A conclusão da operação que torna a gestora IG4 e a Petrobras co-controladoras da Braskem encerra anos de incerteza e inaugura uma etapa de governança compartilhada na maior petroquímica da América Latina.
Nova composição acionária redefine poder de voto
A estrutura formalizada em 3 de junho de 2026 atribui à IG4, por meio do fundo Shine, 50,1% das ações ordinárias da Braskem (BRKM5), garantindo maioria decisória em assembleias. Já a Petrobras (PETR4) detém 47% dos papéis com direito a voto, convertendo sua histórica posição de investidora relevante em ingerência direta. A antiga controladora, Novonor, permanece com aproximadamente 4% do capital, porém em ações preferenciais, sem poder deliberativo. Com este desenho, encerra-se o processo de alienação iniciado pela Novonor após sucessivas tentativas de venda frustradas entre 2020 e 2025, período marcado por propostas não concretizadas de grupos internacionais e fundos de investimentos.
O acordo fechado em abril e efetivado agora estabelece um shareholders’ agreement que baliza voto conjunto em decisões estratégicas, distribuição de dividendos e política de endividamento. O documento também prevê cláusulas de tag along e de resolução de conflitos por arbitragem, práticas que visam reforçar a segurança jurídica e mitigar eventuais impasses entre os novos controladores.
Reestruturação da governança e nomes indicados
A companhia convocou assembleia para 8 de junho de 2026, quando ocorrerá a eleição dos novos conselheiros. O colegiado será integrado por nove membros, dos quais cinco indicados pela IG4, três pela Petrobras e um independente adicional aprovado em comum acordo. A presidência do conselho já está definida: Magda Chambriard, atual CEO da Petrobras, assumirá a função logo após a posse, consolidando alinhamento estratégico entre a estatal e a petroquímica.
Entre as metas da nova governança constam:
- Implementação de métricas de performance financeira atreladas ao fluxo de caixa livre.
- Revisão da política de alavancagem, com teto de 3,5 vezes dívida líquida/EBITDA até 2028.
- Fortalecimento dos comitês de Sustentabilidade, Auditoria e Riscos, ampliando transparência após o episódio geológico de Maceió.
O acordo ainda estabelece que qualquer alienação de ativos superiores a US$ 250 milhões exigirá quórum qualificado, medida desenhada para proteger interesses mútuos em eventuais desinvestimentos, sobretudo no exterior, como a subsidiária Braskem Idesa, no México.

Desafios financeiros e operacionais no curto prazo
Apesar do rearranjo societário, a Braskem segue enfrentando margens comprimidas no mercado global de resinas termoplásticas e poliolefinas. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou EBITDA ajustado de US$ 270 milhões, redução de 18% na comparação anual, reflexo da queda internacional dos preços da nafta e do etano, além da desaceleração industrial na Ásia.
O balanço também evidencia passivos significativos: o desastre geológico em Maceió, detectado em 2019, gerou provisões de R$ 14,4 bilhões, com desembolsos futuros condicionados a laudos técnicos e ações judiciais em curso. Paralelamente, vencem ainda em 2026 dívidas de curto prazo somando US$ 1,46 bilhão, enquanto o caixa disponível corresponde a US$ 1,06 bilhão. A administração negocia com bancos a rolagem de parte desse montante e estuda emissão de títulos no exterior.
No México, a controlada Braskem Idesa protocolou pré-negociações para um processo de Chapter 11 nos Estados Unidos, buscando reestruturar compromissos em dólares sem contaminar o balanço consolidado. O acordo de controle compartilhado atribui à IG4 a liderança direta dessas tratativas, enquanto a Petrobras se concentra na sinergia industrial com seus polos de refino no Brasil.
Conclusão Técnica
Com a transferência de poder votante para a IG4 e o fortalecimento da participação da Petrobras, a Braskem ganha novo arranjo decisório após sete anos de incertezas. O modelo bipartite de governança entra em vigor imediatamente, sob supervisão de Magda Chambriard, e foca em disciplina financeira, gestão de riscos e eficiência operacional. Contudo, a necessidade de refinanciamento de US$ 1,46 bilhão, a continuidade das obrigações relativas ao afundamento de solo em Alagoas e a reestruturação da unidade mexicana permanecem como fatores críticos que podem influenciar o desempenho da companhia nos próximos trimestres.



