Casas Bahia pede recuperação judicial e revela passivo de R$ 17 bilhões após colapso do capital de giro

Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial em 25 de agosto de 2026, expondo um passivo de R$ 17 bilhões; a decisão reflete a combinação de dívida de curto prazo, juros elevados e restrição de crédito que esgotou o capital de giro, inviabilizando a operação da varejista mesmo após tentativas de desalavancagem iniciadas em 2023.

Trajetória da dívida: da redução inicial ao salto bilionário

A varejista — listada no Novo Mercado sob o ticker BHIA3 — encerrou 2023 com dívida líquida próxima de R$ 1,2 bilhão, após vender ativos não estratégicos e alongar passivos bancários. O cenário mudou em 2024 quando o ciclo de aperto monetário manteve a Selic acima de 13 % ao ano, encarecendo linhas de crédito rotativo, carteiras de duplicatas e debêntures emitidas em 2021. A despesa financeira anual saltou 62 %, pressionando o Ebitda e revertendo o fluxo de caixa. Em 2025, parte da dívida de fornecedores migrou para o balanço como obrigação financeira, elevando o endividamento bruto para R$ 12,9 bilhões. O rombo foi consolidado em 2026 com a reclassificação de rubricas de arrendamento e antecipações de recebíveis, totalizando R$ 17 bilhões no requerimento judicial.

Juros altos e restrição de crédito comprimem o capital de giro

O modelo de negócio da companhia depende de financiamento de estoque e crédito ao consumidor. A deterioração do score de risco no sistema bancário, associada ao aumento da inadimplência em mercadorias de linha branca, levou bancos e factorings a reduzirem limites e encurtarem prazos. Em março de 2026, o custo médio ponderado das emissões de CCBs passou de 109 % para 140 % do CDI, segundo relatório protocolado no processo. Paralelamente, o prazo médio de repasse de cartões caiu de 29 para 19 dias, exigindo reposição imediata de caixa. Sem colchão financeiro, a companhia utilizou recebíveis futuros para honrar parcelas de debêntures que venciam em julho, corroendo a liquidez corrente e estressando convenants com credores.

Pressão de fornecedores e erosão do estoque

Fabricantes de eletrônicos e móveis exigiram pré-pagamento parcial após o rebaixamento de rating feito por duas agências em abril. Como consequência, o giro de estoque — historicamente em 76 dias — subiu para 101 dias, travando prateleiras e reduzindo sortimento em lojas físicas. Para preservar a margem de contribuição, a varejista reduziu campanhas promocionais, o que impactou o tráfego nas plataformas digitais e provocou queda de 8,4 % na receita bruta do segundo trimestre. A ruptura no supply chain aprofundou o déficit operacional, já que custos fixos de logística permaneceram altos, inclusive contratos de aluguel indexados ao IPCA.

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Impacto da estrutura multicanal e desafios adicionais

A estratégia de omnicanalidade, que previa modernização de 500 pontos de venda até 2027, envolvia desembolsos anuais de capex de R$ 700 milhões. Com a escalada da dívida, parte desses projetos foi financiada por leasing operacional, agora reclassificado como passivo financeiro. O fechamento de 72 lojas desde janeiro também gerou despesas de rescisão trabalhista estimadas em R$ 128 milhões. Relatórios internos mostram que o custo de armazenagem em centros de distribuição regionais aumentou 18 % pela subutilização da capacidade.

Conclusão Técnica

O pedido de recuperação judicial concede estadia de 180 dias contra execuções e oferece um ambiente para renegociação com 7,3 mil credores, entre bancos, fornecedores e investidores institucionais. O plano preliminar — a ser apresentado em 60 dias — prevê alongamento de dívidas, conversão de parte dos débitos em participação acionária e venda de ativos imobiliários. A continuidade operacional dependerá da recomposição do capital de giro via linhas pós-concursais e da restauração da confiança da cadeia de suprimentos. Enquanto o conselho revê o plano de transformação digital, o mercado acompanhará os próximos balanços para medir a capacidade de geração de caixa diante de um cenário de juros ainda elevados e consumo em desaceleração.