O Citi reduziu a recomendação das ações da Kepler Weber (KEPL3) de neutra para venda nesta segunda-feira (1), atribuindo o ajuste a inadimplência crescente no agronegócio, juros elevados persistentes e intensificação da concorrência no mercado de silos de armazenamento.
Rebaixamento e impacto imediato no mercado
O novo relatório, assinado pelos analistas André Mazini, Kiepher Kennedy e Piero Trotta, fixa o preço-alvo em R$ 5,60, ante projeção anterior de R$ 9,00. A estimativa implica potencial de queda de 17,4 % frente à cotação de R$ 6,78 registrada na abertura do pregão de hoje. No acumulado de 2026, o papel já recua 31,5 %, enquanto, em 12 meses, a desvalorização chega a 12,68 %.
Segundo o banco, a fabricante fundada em 1925, detentora de aproximadamente 35 % de participação no mercado brasileiro de silos, passa por deterioração gradual na demanda desde meados de 2023. O período pós-pandemia marcou o fim de um ciclo de crédito abundante e preços agrícolas elevados que favoreceu o segmento entre 2020 e 2022.
Três vetores de pressão identificados pelo Citi
1) Rentabilidade dos produtores: Margens entre 1 % e 2 %, classificadas pelos analistas como as piores em quase duas décadas, limitam investimentos em infraestrutura de estocagem. A redução de caixa disponível é consequência da combinação de preços de soja e milho mais baixos e custos de insumos inflacionados pela continuidade da guerra no Oriente Médio, que encarece fertilizantes.
2) Custo de capital: O Citi projeta Selic encerrando 2026 em 13,75 % a.a. Apesar de linhas subsidiadas ao agronegócio, a taxa básica elevada encarece financiamentos de longo prazo e posterga decisões de compra de equipamentos. A instituição ressalta ainda que a incerteza fiscal nacional compromete a visibilidade de retorno sobre projetos rurais.
3) Concorrência crescente: A descontinuidade da venda da Kepler Weber à Grain & Protein Technologies (GPT) abriu espaço para expansão orgânica da rival. Paralelamente, a canadense AGI adota políticas comerciais mais agressivas. Essa dupla movimentação pressiona preços e pode erodir a margem bruta da companhia brasileira nos próximos trimestres.
Dados operacionais e estrutura corporativa
Com capital aberto desde 15 de dezembro de 1980, a Kepler mantém três fábricas, nove centros de distribuição e emprega 1 800 colaboradores. A presença internacional alcança 54 países, mas a receita ainda é majoritariamente gerada no mercado interno, altamente exposto ao ciclo de renda do produtor nacional.
Entre 2020 e 2022, a empresa registrou expansão expressiva de pedidos, beneficiada por créditos rurais subsidiados e picos de preços das commodities. A partir de junho de 2023, as quedas nos índices de relação de troca (sacas por equipamento) reduziram o volume de negócios. Há indícios de que a capacidade ociosa dentro das plantas fabris esteja acima de 30 %, elevando custos fixos por tonelada produzida.
Cenário macro e perspectivas de curto prazo
Agentes do setor, como o vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Gilson Alceu Bittencourt, apontam inadimplência concentrada em grandes fabricantes de máquinas e insumos, mas evitam classificar o momento como crise estrutural. A instituição projeta recuperação “rápida” tão logo o custo do dinheiro recue, amparada pela expectativa de safra volumosa em 2026/27.
O Citi, contudo, avalia que a normalização depende da convergência de três fatores: queda consistente dos juros, recomposição de preços agrícolas internacionais e redução das incertezas fiscais domésticas. Até que haja visibilidade sobre esses vetores, a recomendação permanece em venda e o desconto de fluxo de caixa livre segue pressionado por uma taxa de desconto superior à média histórica.
Conclusão técnica
Os fundamentos atuais indicam que a Kepler Weber enfrenta fragilidades simultâneas de demanda, custo de capital e competição. Enquanto as margens dos agricultores permanecerem comprimidas e a taxa Selic elevada, o volume de pedidos de silos tende a seguir em retração, justificando a revisão de R$ 9,00 para R$ 5,60 no preço-alvo. Caso o ambiente macroeconômico melhore — com juros mais baixos, recuperação dos preços de commodities e estabilização fiscal —, a companhia poderá retomar crescimento, mas o Citi avalia que essa inflexão não se materializará no horizonte de curto prazo.



