Companhias aéreas passaram a postergar o exercício de opções de compra de aeronaves já contratadas após a escalada nos preços do querosene de aviação e as incertezas decorrentes do conflito no Irã, informou o chief executive officer da Embraer, Francisco Gomes Neto, durante a assembleia anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo, realizada em 6 de junho no Rio de Janeiro.
Pressão combinada de combustível e geopolítica altera prioridades de caixa
O preço internacional do querosene de aviação (QAV) vem avançando desde o primeiro trimestre de 2026, acompanhando o barril de Brent, que superou US$ 98 após sucessivos cortes na produção da OPEP + e bloqueios logísticos no Estreito de Ormuz. A alta direta de custos operacionais elevou a cautela de companhias que, segundo Gomes Neto, “poderiam ter exercido opções de compra neste semestre, mas optaram por esperar maior visibilidade do cenário de guerra”.
O impacto imediato se traduz em adiamento, não cancelamento. As empresas preservam liquidez e adiam compromissos de capital intensivo, mas mantêm as linhas de crédito e o direito de aquisição futura. A Embraer reporta que, apesar dessa postergação, nenhuma solicitação de reescalonamento de entregas firmes foi registrada.
Carteira de pedidos permanece robusta e mira Farnborough para novos acordos
A carteira comercial da companhia ainda cobre aproximadamente cinco anos de produção, sustentada por encomendas concluídas em 2025, como os 18 jatos para a Finnair e 15 aeronaves para a arrendadora norte-americana Azorra. O foco, agora, recai sobre o Farnborough Airshow, no Reino Unido, agendado para julho, onde a Embraer espera converter negociações em novos contratos para a família E2.
Os modelos E190-E2 e E195-E2 oferecem consumo de combustível até 25% inferior ao de jatos da geração anterior, argumento central no atual ambiente de petróleo caro. A empresa aposta que a eficiência energética, combinada ao menor porte — ideal para rotas com demanda média — continue atraindo operadoras que buscam rentabilidade sem sacrificar frequência.
Produção projetada até 2027 e gargalos de suprimentos
De acordo com o cronograma interno divulgado pelo executivo, a Embraer mantém a meta de 80 a 85 aeronaves comerciais em 2026 e 95 a 100 unidades em 2027. O principal risco não está nas tensões geopolíticas, mas na ainda incompleta normalização da cadeia de suprimentos, abalada desde a pandemia de 2020. Componentes de sistemas hidráulicos, aviônicos e interiores continuam sujeitos a prazos estendidos, embora Gomes Neto relate “melhora gradual” trimestre a trimestre.

Para proteger margens, a área comercial renegociou contratos antigos de menor lucratividade e busca preços mais próximos dos patamares vigentes de mercado. O executivo ressalta que o fluxo de novas propostas “cria um ponto de apoio para repassar custos de materiais sem perder competitividade”.
Clareza regulatória e taxa de juros influenciam decisões de frota
Analistas de leasing ressaltam que a decisão de exercitar opções de compra depende de duas variáveis financeiras-chave: custo do combustível e custo de capital. Enquanto o primeiro está diretamente ligado à geopolítica, o segundo reflete a curva global de juros, que segue elevada nas principais economias. O adiamento observado equivale a preservar liquidez em ambiente de cash burn mais alto e retorno sobre investimento menos previsível.
Algumas companhias utilizam cláusulas de flexibilidade para adiar o “call option” até 24 meses após a data originalmente pactuada, prática comum em contratos sale-leaseback. A Embraer monitora esses prazos para calibrar sua própria programação industrial e evitar estoques não alocados.
Conclusão Técnica
O avanço do conflito no Irã e a consequente valorização do petróleo criaram um ambiente de custos operacionais elevados e incerteza estratégica para as transportadoras aéreas. Esse cenário levou parte dos clientes da Embraer a postergar o exercício de opções de compra, movimento que, por ora, não afeta entregas firmes nem reduz a carteira já contratada. A fabricante sustenta metas de crescimento produtivo até 2027, ancorada em pedidos existentes, eficiência energética dos jatos E2 e expectativa de fechar novos contratos em Farnborough. O desfecho dependerá da estabilização das cadeias de suprimentos e da trajetória dos preços do combustível; até lá, cautela financeira e renegociação de termos comerciais permanecem as principais respostas da indústria.



