Rubens Ometto conduz a Cosan a uma fase de reorganização societária que inclui a cisão de ativos avaliados em R$ 2,6 bilhões, a saída da Bolsa de Nova York e mudanças na vice-presidência financeira, medidas alinhadas ao objetivo de enxugar a estrutura, acelerar a desalavancagem e diminuir o desconto de holding que ainda ronda a ação CSAN3.
Estrutura da Radar é cindida para simplificar participações agrícolas
A holding aprovou a extinção da Radar II Propriedades Agrícolas, veículo cujo patrimônio líquido foi estimado em R$ 2,57 bilhões. Com a cisão, os ativos serão distribuídos proporcionalmente entre Cosan e Mansilla Participações, cada uma detentora de aproximadamente 50 % da empresa. Dessa forma, cerca de R$ 1,29 bilhão em propriedades rurais passará a figurar diretamente no balanço da holding, sem emissão de novas ações ou diluição dos atuais acionistas.
Apesar da magnitude do valor, a operação não gera ganho contábil imediato, pois os ativos já eram reconhecidos por equivalência patrimonial. O benefício esperado reside na organização mais clara dos títulos fundiários e na maior flexibilidade para monetização futura. A companhia estima desembolso de R$ 500 mil para concluir o processo, que, se aprovado em assembleia, produzirá efeitos a partir de 1.º de outubro de 2026.
Deslistagem nos Estados Unidos elimina camada regulatória e reduz custos
Em paralelo, a Cosan comunicou a intenção de retirar voluntariamente seus American Depositary Shares da NYSE. Cada ADS corresponde a quatro ações ordinárias, e o cancelamento do registro junto à SEC ainda depende de trâmites formais. Embora o impacto financeiro direto seja limitado, a decisão remove obrigações regulatórias adicionais, enxuga despesas de reporte e reforça a estratégia de centralizar a base acionária no mercado brasileiro.
A companhia justificou que a liquidez dos papéis em Nova York não compensava os custos de manutenção. Os acionistas estrangeiros continuarão aptos a negociar os títulos no mercado de balcão dos Estados Unidos, conforme regra habitual após deslistagens voluntárias.
Nova liderança financeira reforça foco em desalavancagem e disciplina de capital
Como parte do movimento de simplificação, Rafael Bergman deixará a vice-presidência financeira e de Relações com Investidores. A partir de setembro de 2026, o cargo será assumido por José Cezário Menezes de Barros Sobrinho, ex-CFO da Rumo. A área jurídica também passará a responder ao novo CFO, concentrando decisões estratégicas e financeiras em um único executivo.
O mandato central é acelerar a redução da alavancagem. Entre abril e junho, a dívida líquida da holding encolheu 47 % em relação ao mesmo período de 2025, para R$ 9,22 bilhões, movimento impulsionado pelo recebimento de R$ 2,3 bilhões provenientes da oferta secundária de ações da Compass. Ainda assim, a empresa encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 320 milhões, número influenciado por menor despesa efetiva de impostos, melhoria no resultado financeiro e contenção de despesas administrativas.
Guidance para cobertura do serviço da dívida é revisado para até 1,2 vez
Para sustentar a trajetória de desalavancagem, a Cosan divulgou novo intervalo-meta de cobertura do serviço da dívida, calculado pela razão entre dividendos recebidos das investidas e desembolsos com juros e amortizações na holding. A companhia pretende sair do patamar de 0,2 vez registrado no fim do primeiro semestre para algo entre 0,8 e 1,2 vez até dezembro de 2026.
O plano pressupõe ingressos de R$ 1,3 bilhão a R$ 1,8 bilhão em dividendos até o fim do horizonte projetado. No primeiro semestre, haviam sido contabilizados R$ 434 milhões. Para atingir o ponto médio de R$ 1,55 bilhão, será necessário arrecadar mais R$ 1,1 bilhão nos dois trimestres restantes de 2026. Desse montante, R$ 586 milhões devem vir da venda de terras agrícolas pela Radar, enquanto cerca de R$ 530 milhões dependerão de repasses de outras subsidiárias, valor considerado exequível por analistas do BTG Pactual.
Mercado monitora desconto de holding e potencial de valorização
O conglomerado reúne participações em Rumo, Compass, Raízen, Moove e Radar, mas carrega dívida corporativa que pressiona a cotação. Segundo estimativa do BTG Pactual, o desconto implícito de holding sobre CSAN3 é de 25 %. Caso o programa de simplificação societária e redução de endividamento seja totalmente cumprido, o banco projeta potencial de alta de 33 % para as ações. O ganho poderia ser superior se as subsidiárias apresentarem expansão de valor de mercado.
Além da venda de ativos agrícolas, a companhia já avançou na alienação da totalidade da participação no Porto São Luís por R$ 300 milhões, com possibilidade de R$ 50 milhões adicionais em earn-out. Essa operação, aliada à oferta da Compass, serve de indicativo da capacidade do grupo de converter ativos em caixa sem comprometer retornos de longo prazo.
Conclusão Técnica
A Cosan atravessa um ciclo de desmonte estratégico que combina reorganização societária, alienação de participações não essenciais, retirada de listagens secundárias e reforço na governança financeira. O conjunto de medidas busca elevar a transparência dos ativos, liberar recursos para amortização de passivos e aproximar a estrutura corporativa do fluxo de dividendos proveniente das controladas. O sucesso do programa depende da execução das vendas planejadas, da disciplina de capital e da entrega operacional de Rumo e Compass. Se as metas forem cumpridas, a percepção de risco tende a diminuir e o desconto de holding sobre CSAN3 pode convergir para níveis historicamente mais baixos até o fim de 2026.



