Startups baseadas em descobertas científicas, conhecidas como deep techs, multiplicam-se no país e começam a chamar a atenção de investidores de capital de risco e de braços de corporate venture capital (CVC) de grandes empresas.
Mapa do ecossistema
O relatório Deep Techs Brasil 2024, elaborado pela consultoria Emerge, identificou 875 startups desse perfil em operação no Brasil. A maior parte (65%) está concentrada na região Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo, que sozinho reúne 55% do total mapeado. Sete em cada dez companhias atuam em biotecnologia.
Entre os segmentos atendidos, saúde humana responde por 32,9% dos projetos, agro e saúde animal por 27,4%, e química, petroquímica e materiais por 9,6%. Ainda segundo o levantamento, 124 deep techs já captaram recursos privados, principalmente de fundos de venture capital.
Comparativo latino-americano
Com metodologia própria, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) contabilizou 101 deep techs brasileiras que receberam aportes de venture capital até 2023. O BID estima o valor do ecossistema nacional em US$ 1,9 bilhão, com 37 startups avaliadas acima de US$ 10 milhões. Nesse grupo, biotecnologia responde por 57% das empresas listadas.
Potencial competitivo
Carlos Pacheco, presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, avalia que o Brasil reúne condições favoráveis em biomedicina, biotecnologia, energia renovável e insumos de base natural. “Não seremos players globais em semicondutores, mas temos chances reais em ciências da vida”, afirma.
Financiamento inicial
Nos primeiros anos, as deep techs dependem sobretudo de bolsas e subvenções públicas. A Fapesp apoia projetos por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), que destina até R$ 300 mil na fase 1 e até R$ 1,5 milhão na fase 2. Desde 1997, quase duas mil companhias foram beneficiadas, 60% delas ainda ativas. A fundação estuda criar, junto a BNDES, Finep e bancos parceiros, mecanismos que facilitem a entrada de capital privado.
Atração de recursos globais
De acordo com o fundo Grids Capital, o mercado mundial de venture capital levantou cerca de US$ 300 bilhões em 2024. Desse montante, o Brasil recebeu aproximadamente US$ 2 bilhões, sendo US$ 400 milhões destinados a deep techs. O fundador do Grids Capital, Guy Perelmuter, observa que empreendedores científicos brasileiros conseguem captar fora do país, desde que apresentem histórico consistente de pesquisa financiada por recursos públicos.
Interesse corporativo
Gabriel Perez, sócio-gerente do fundo Pitanga, conta que a gestora investe em tecnologias radicalmente inovadoras e potencialmente patenteáveis. Um dos aportes foi destinado à Nintx, biotech que desenvolve medicamentos a partir da biodiversidade brasileira. Para o executivo, o envolvimento de grandes empresas ainda é tímido, mas vem ganhando impulso com a criação de novos fundos de CVC.

Imagem: valor.globo.com
Estágios de maturidade
O mapeamento da Emerge aponta que 70% das deep techs nacionais permanecem nas etapas de desenvolvimento tecnológico: 1,7% em pesquisa básica, 34,3% em projeto inicial e 34,9% em projeto final. Outros 30% já avançaram à fase de implementação de produtos ou serviços.
Vantagem competitiva
Para Lucas Delgado, cofundador da Emerge, a principal vantagem das deep techs é chegar ao mercado sem concorrentes diretos, uma vez que atuam em fronteiras tecnológicas ainda inexploradas.
Com números que reforçam a vocação brasileira para inovação em ciências da vida, o setor de deep techs segue em expansão e desperta o interesse de investidores dispostos a lidar com ciclos de maturação mais longos.
Se você quer entender como essas rodadas de investimento impactam a economia real, confira também o conteúdo disponível na seção Dicas do Capital Financeiro.
Com informações de Valor Econômico


