Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil intensificaram, desde o início de 2026, a concessão de crédito consignado para trabalhadores do setor privado, elevando a carteira dessa modalidade a R$ 100 bilhões em março, segundo o Banco Central. O movimento atende à necessidade de reduzir inadimplência em meio à Selic elevada, reforçando a preferência dos bancos por operações respaldadas por desconto em folha e uso facultativo de FGTS como garantia.
Crescimento recorde e participação de mercado
Dados divulgados pelo Banco Central indicam que o saldo do consignado privado avançou 142 % em doze meses, ultrapassando a barreira de R$ 100 bilhões em março. Embora o montante represente pouco mais de um quarto dos R$ 384 bilhões alocados em consignado para servidores públicos, a base potencial de tomadores segue ampla: o Brasil possui cerca de três vezes mais empregados sob regime CLT do que funcionários públicos.
No ranking das instituições, o Itaú mantém liderança, com carteira que saltou de R$ 12 bilhões antes do programa governamental para R$ 19,5 bilhões no 1º trimestre, assegurando participação de mercado superior a 20 %. O Bradesco também avançou: o saldo dedicado à modalidade alcançou R$ 6,7 bilhões, crescimento anual de quase 43 % e fatia de 6,6 % do mercado geral. Na esfera pública, a Caixa Econômica Federal registrou aproximadamente R$ 9 bilhões em consignado CLT, ainda modesta frente ao total de R$ 114,2 bilhões da carteira global do banco, mas com plano de expansão nos próximos meses.
Vantagens operacionais e desafios sistêmicos
O consignado privado é considerado “crédito bom” por apresentar menor probabilidade de atraso: as parcelas são debitadas diretamente do contracheque e, em caso de dispensa sem justa causa, parte do saldo de FGTS pode ser alocada à liquidação da dívida. Esses mecanismos permitem taxas médias inferiores às de linhas sem garantia; em março, o juro anual médio situou-se em 56,8 %, equivalentes a aproximadamente 3,8 % ao mês.
Apesar da atratividade, pendências técnicas no DataPrev limitam a escala da modalidade. A falta de automatização para portabilidade entre bancos e migração de contrato quando o trabalhador troca de emprego obriga a celebração de um novo acordo, elevando custo operacional. Melhorias começaram a ser implementadas em maio e devem estar concluídas até setembro, segundo a Caixa.
Estratégias dos bancos e panorama competitivo
Com a Selic em patamar elevado, bancos vêm reduzindo exposição a produtos sem garantia — especialmente cartão de crédito — e realocando esforços no consignado e em linhas com colateral. A head of credit da Integral Group, Maria Estela Ferraz de Campos, observa que instituições com carteiras PJ robustas têm vantagem competitiva, pois concentram maior número de empresas-cliente e, por consequência, uma base extensa de empregados aptos ao consignado.

O vice-presidente de Finanças e Controladoria da Caixa, Marcos Brasiliano Rosa, ressalta que a “batalha” ocorre primordialmente pela adesão das empresas, e não pela relação direta com o tomador pessoa física. Nesse contexto, bancos ampliam convênios corporativos, oferecem processos digitais simplificados e negociam taxas agressivas para consolidar volume.
Perspectivas regulatórias e efeito sobre juros
Em abril, o Ministério do Trabalho publicou portaria que estabelece punições a instituições que pratiquem juros acima de referência calculada pela pasta e limita o custo efetivo total (CET) das operações digitais a um ponto percentual acima da taxa mensal. Além disso, o governo estuda liberar oferta de garantias do FGTS nos apps dos bancos, respeitando restrições específicas, caso o empréstimo não seja contratado via Carteira de Trabalho digital.
Análise da agência Fitch aponta que a combinação de incertezas operacionais e ajustes regulatórios tende a pressionar margens no curto prazo. Caso os entraves persistam, bancos podem adotar postura mais conservadora na originação, afetando a eficiência do mercado e retardando a convergência das taxas de juros a patamares mais baixos.
Conclusão Técnica
A expansão de 142 % na carteira de consignado privado em um ano confirma a relevância do produto como instrumento de mitigação de risco de crédito para o sistema bancário. O avanço depende, porém, da plena integração do DataPrev, da padronização de portabilidade e da consolidação das regras de acesso ao FGTS. Com a perspectiva de ajustes operacionais concluídos até o final do 3º trimestre e diretrizes regulatórias em curso, a expectativa é de que a concorrência permaneça acirrada, com potencial de novas reduções graduais nas taxas à medida que o ambiente de inadimplência se estabiliza e a Selic inicia trajetória de queda.



