Ingredientes originalmente confinados à cozinha — como alga kombu, kimchi e manteiga — saltaram do prato para o copo e, segundo bartenders de referência, transformaram os drinks salgados em categoria de longo prazo; a capital paulista já concentra mais de 30 receitas fixas distribuídas por ao menos 10 bares, impulsionadas por redes sociais, apelo sensorial do umami e técnicas como fat washing e clarificação.
Panorama internacional e mudança de paladar
A ascensão de sabores salgados na coquetelaria tem raízes em movimentos simultâneos. Nos Estados Unidos, o Dirty Martini voltou a figurar entre os dez coquetéis mais pedidos em 2025, de acordo com o relatório anual da Drinks International. Em Cingapura e Nova York, vídeos que misturam parmesão, alface-caesar ou salmoura de kimchi superaram a marca de 50 milhões de visualizações no TikTok ao longo de 18 meses, reforçando o conceito de swavory — fusão de doce (sweet) e salgado (savory).
No Brasil, o fenômeno desembarca em momento de diversificação do público. Pesquisa interna do Sindicato de Bares e Restaurantes de São Paulo (2026) indica que 68 % dos consumidores de 25 a 40 anos procuram “sabores inéditos” ao escolher um coquetel. O mesmo estudo aponta que referências a umami em cardápios subiram de 43 para 71 % entre 2022 e 2026.
Da cozinha para o bar: ingredientes e processos
O intercâmbio entre gastronomia e mixologia ampliou o arsenal do bartender. Segundo Ale Bussab, do Trinca Bar & Vermuteria, “o bar passou a enxergar o insumo pelo sabor, não pela categoria”. A lista de componentes salinos hoje inclui salmoura de pepino, molho nam pla, missô e parmesão, além de gorduras submetidas ao fat washing para aromatizar destilados sem deixar resíduos.
Técnicas clássicas de confeitaria, como clarificação com pectina ou gelatina, se tornaram rotineiras para remover sólidos e intensificar transparência. Já processos fermentativos — caso do kimchi ou do tucupi preto — agregam camadas de acidez, profundidade e corpo, elementos críticos para que a salinidade deixe de ser coadjuvante e assuma papel principal.
Mapa paulistano: bares, receitas e números
Levantamento realizado em outubro de 2026 identifica 13 casas na capital com preparos salgados permanentes:
Song Qi — Smoked Martini reúne saquê, vodca, Carpano Dry e salmoura defumada, trocando a acidez da azeitona por notas de fumaça.
Guilhotina Bar — o Butter Theory aplica fat washing de pipoca de cinema em vodca Ketel One, combinado a Jerez Manzanilla e vermute seco.
Pininha — mantém 21 variações do Bloody Mary; a Pininha Mary mescla cachaça prata, tequila blanco e sumo de tomate com raiz-forte.
Wooza — o Wooza Martini utiliza água de conserva de nabo com pitaya roxa; já o Negronichi incorpora salmoura de kimchi diluída em soju.
Amazo — o Chica Maria substitui vodca por pisco e acentua pimenta rocoto para adaptar o Bloody Mary ao repertório peruano-amazônico.
Fitó — o Coração de Manteiga combina vodca lavada em manteiga de garrafa a água de tomate clarificada.
Kureiji — apresenta o Tucupi Manhattan, que injeta tucupi preto a uma base de blended scotch e bourbon, e o apimentado Kimchi Mary.

Fifty Fifty Bar — O Aspargo une awamori, whiskey irlandês e aspargo tostado.
Bar dos Arcos — trio salino de Tomates, Pesto e Sujo Martini, todos baseados em gim Tanqueray e vermute seco.
Tan Tan — o Hello Suckers incorpora chá lapsang souchong para reforçar defumação.
Trinca Bar & Vermuteria — Jerez 4x integra quatro estilos do vinho fortificado com alga kombu; o Golden Brown mescla uísque escocês a tarê de cogumelo.
Rabo di Galo — o Rogai leva tequila Altos, pimentão queimado e azeite de ora-pro-nóbis.
Juntas, essas casas vendem em média 350 unidades semanais de bebidas salgadas, segundo estimativas internas compartilhadas pelos estabelecimentos. O tíquete médio varia de R$ 38 a R$ 62, valor 15 % superior ao de coquetéis convencionais na mesma praça.
Desafios operacionais e potencial de expansão
A adoção de insumos não convencionais eleva custos logísticos e demanda treinamentos extras para evitar instabilidade sensorial. Estella Moraes, do Guilhotina Bar, aponta que a criação média exige “seis a oito testes” até chegar ao equilíbrio entre conceito e execução. Já Gabriel Szklo – responsável pelo menu do Pininha – diferencia a “pitada de ajuste” da salinidade como eixo central, defendendo que o segundo modelo impulsiona a originalidade percebida pelo cliente.
Do lado da demanda, a resistência inicial costuma estar associada a experiências de desequilíbrio, não ao sal em si. Relatório informal do Observatório da Coquetelaria Brasileira mostra que 74 % dos frequentadores dispostos a provar um drink salgado voltariam a pedi-lo se a primeira experiência fosse positiva.
Conclusão técnica
O avanço dos drinks salgados reflete a maturidade do consumo de coquetéis no Brasil e a convergência entre cozinha e bar. Indicadores de venda, engajamento digital e ampliação de portfólio sugerem que a presença de insumos ricos em umami, gorduras e fermentados deixará a esfera da experimentação para integrar cartas regulares. Nos próximos ciclos, a expectativa dos profissionais é de diversificação regional dos insumos — da salmoura de queijo-coalho ao caldo de bacalhau — e adoção de métricas internas para padronizar processos como clarificação e fat washing, garantindo consistência e escala sem comprometer o perfil sensorial pensado por cada bartender.



