Analistas reforçam que a taxa básica de juros segue com queda gradual em 2026, mas o resultado das urnas introduziu cenários divergentes que podem levar a Selic de 11,50% a 12,50% ao fim de 2027, ainda que a mediana permaneça em 12,00%.
Trajetória previamente sinalizada para 2026
Nas últimas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), a autoridade monetária indicava um ciclo adicional de cortes de 25 pontos-base nas reuniões de novembro e dezembro de 2026. Com isso, a Selic encerraria o ano em 13,25%, consolidando a fase de flexibilização iniciada no primeiro semestre. Relatórios de casas de análise apontavam para um processo “entediante”, conforme classificou o economista Rodolfo Amstalden, caracterizado por previsibilidade e ausência de choques inflacionários relevantes.
O cenário-base considerava estabilidade nos preços administrados, câmbio em torno de R$ 5,10 e crescimento do PIB próximo a 2,0% no acumulado do ano. Nessas condições, o Focus — pesquisa semanal do Banco Central — projetava redução da Selic até tocar o piso de 11,50% em meados de 2027, antes de uma leve recomposição.
Influência das eleições sobre as expectativas de juros
A campanha presidencial alterou substancialmente as premissas dos agentes econômicos. A possível vitória de Flávio Bolsonaro passou a ser interpretada como gatilho para um ajuste fiscal “crível e efetivo” logo no início de 2027, o que permitiria ao Copom acelerar o corte em dezembro de 2026 para 50 pontos-base. Nesse contexto, consultorias passaram a trabalhar com Selic terminal em 11,50% no fim de 2027.
No polo oposto, a chance de reeleição do presidente Lula ganhou o reforço de medidas de expansão de gasto estimadas em R$ 350 bilhões. A herança fiscal contratada elevaria a dívida bruta para além de 83% do PIB, segundo projeções do Instituto Fiscal Independente, pressionando a curva de juros longos. Nessa hipótese, a Selic poderia alcançar 12,50% ou até 13,00%, caso o investimento estrangeiro reaja negativamente a um quadro de maior risco-país.
O resultado é uma dispersão inédita: a mesma mediana de 12,00% para dezembro de 2027 agora reflete dois galhos opostos, conforme ilustra a metáfora recorrente entre gestores.

Reação do mercado e próximos marcos de definição
Após o primeiro turno, contratos de DI futuro com vencimento em janeiro de 2028 passaram a precificar prêmio adicional de 35 pontos-base em comparação com o patamar observado antes da corrida eleitoral. Gestores de renda fixa destacam que a volatilidade tende a aumentar até pelo menos a divulgação da composição ministerial do novo governo e da proposta de Orçamento para 2027.
O Banco Central sinalizou que a reunião do Copom de 6 e 7 de dezembro será decisiva para calibrar expectativas, pois incorporará não só o desfecho eleitoral como também a revisão das projeções de inflação para 2027 — atualmente ancoradas em 3,0%. A autoridade já comunicou que eventuais desvios fiscais relevantes serão contrabalançados por política monetária mais restritiva, preservando a meta.
Enquanto isso, o boletim Focus divulgado em 25 de janeiro de 2027 é apontado por economistas como segundo ponto crítico de reprecificação, pois incorporará dados preliminares de transição governamental e sinalizações do novo ministro da Fazenda — posição que pode ser ocupada por Dario Durigan em caso de reeleição de Lula.
Conclusão Técnica
Até o fechamento de 2026, o Copom mantém trajetória de cortes graduais que leva a Selic a 13,25%. A mediana das projeções para dezembro de 2027 segue em 12,00%; contudo, o intervalo de possibilidades se alargou para 11,50%–13,00%, refletindo a incerteza eleitoral. Decisões sobre composição ministerial e plano fiscal do novo governo serão monitoradas pelo mercado, com potencial de redefinir a curva de juros já nas primeiras semanas de 2027.



