Levantamento do BTG Pactual/Nexus publicado em 21 de setembro revela empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro e no segundo turno, cenário que amplia a probabilidade de mudanças na política fiscal e provoca reprecificação imediata em juros, câmbio e bolsas de valores.
Cenário eleitoral: números, margens e possíveis desdobramentos
A pesquisa estimulada para o primeiro turno mostra Lula com 40 % das intenções de voto — ante 42 % no levantamento anterior — e Flávio Bolsonaro estável em 37 %. A margem de erro de ±2 p.p. configura um empate técnico. No segundo turno, três simulações mantêm a disputa apertada: Lula 46 % x Flávio Bolsonaro 45 %; Lula 44 % x Augusto Cury 43 %; e Lula 45 % x Ronaldo Caiado 45 %.
A combinação de indefinição eleitoral com perspectiva de alternância administrativa eleva o chamado “prêmio de incerteza” exigido por investidores para financiar o Tesouro. A curva de juros, especialmente a de vencimentos longos, tende a embutir cenários de risco adicionais sempre que as pesquisas apontam ausência de favorito claro.
Situação fiscal: déficits, metas e requisitos para estabilizar a dívida
O setor público consolidado registrou déficit primário de 1,19 % do PIB nos 12 meses encerrados em junho de 2026. Quando se adicionam os juros, o resultado nominal atinge 9,99 % do PIB. Analistas calculam que a dívida só se estabiliza com superávit primário recorrente situado entre 1,5 % e 2,0 % do PIB, o que implica esforço adicional de cerca de 3 p.p. sobre o desempenho atual.
Para que o ajuste ganhe credibilidade, especialistas listam cinco condicionantes centrais: desaceleração das despesas obrigatórias; revisão de indexações e benefícios; limitação de exceções ao arcabouço fiscal; metas primárias verificáveis; e manutenção da autonomia do Banco Central. A adoção de gatilhos automáticos e de metas intermediárias permitiria acompanhamento constante pelo mercado, mitigando o risco de frustração futura.
Mesmo com meta oficial de déficit em torno de R$ 52 bi para 2026, existem aproximadamente R$ 63 bi em despesas fora do teto de apuração, o que pode mascarar o impacto real sobre a dívida. Esse descompasso ajuda a explicar por que o endividamento cresce apesar do eventual cumprimento formal de metas anuais.

Impactos financeiros: juros, câmbio e bolsa diante de diferentes formatos de ajuste
Quando o mercado acredita em ajuste calcado principalmente em aumento de impostos, a renda fixa tende a mostrar ganho de curto prazo pela elevação de receita, porém o efeito sobre ações é limitado, dado o impacto negativo sobre margens corporativas e consumo. Já uma estratégia focada em controle de despesas e racionalização de subsídios possui repercussão mais abrangente:
- Curva de juros: queda do prêmio de risco pode antecipar a redução das taxas de longo prazo antes do próprio ciclo de corte da Selic.
- Câmbio: ingresso de capital estrangeiro, atraído pelo diferencial de juros real e menor percepção de risco, tende a valorizar o real.
- Inflação: apreciação cambial e ancoragem de expectativas reduzem pressões inflacionárias prospectivas.
- Bolsa: menor custo de capital e melhora nas projeções de lucro elevam múltiplos; projeções apontam Ibovespa potencial entre 205 mil e 300 mil pontos, a depender da profundidade do ajuste.
Todos esses efeitos interagem em sequência: juros menores reduzem despesa financeira do governo, liberam espaço orçamentário e, ao mesmo tempo, estimulam investimento privado — criando o chamado ciclo virtuoso de crescimento.
Conclusão técnica
Com a eleição de 2026 aberta e a situação fiscal exigindo correção de rota, investidores monitoram simultaneamente pesquisas eleitorais e propostas concretas de consolidação orçamentária. Caso o próximo governo apresente cronograma crível de superávits, a resposta dos ativos pode anteceder a execução efetiva das medidas, refletindo na compressão dos prêmios de risco. Até lá, volatilidade deve permanecer elevada, condicionada à divulgação de sondagens e à qualidade dos programas econômicos detalhados pelos principais candidatos.



