Escassez de chips de memória eleva preços de eletrônicos no Brasil

A prioridade de grandes fabricantes globais em produzir chips de memória de alta largura de banda (HBM) para atender à expansão de data centers de inteligência artificial está provocando uma escalada de custos em toda a cadeia de eletroeletrônicos. Estimativas da consultoria Counterpoint Research apontam alta de 40% a 50% nos preços de chips de memória no primeiro trimestre de 2026, seguida por mais 20% no segundo trimestre.

O impacto já é visível nas linhas de produção de celulares, computadores, televisores e demais dispositivos. Relatório da mesma consultoria indica que, apenas na memória DRAM, o custo dos componentes subiu 25% para smartphones de entrada, 15% para modelos intermediários e 10% para aparelhos premium. O reflexo no consumo final, segundo a projeção, deve resultar em queda de 2,1% nas vendas globais de celulares em 2026.

Reajustes no mercado brasileiro

No Brasil, fabricantes ajustaram em dezembro pelo menos 20% os preços de PCs e smartphones repassados ao varejo. Para Maurício Helfer, diretor de informática da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o cenário supera em gravidade a escassez de semicondutores vivida durante a pandemia de covid-19. “Agora a demanda por data centers de IA seguirá forte até 2028, e a adaptação das fábricas de semicondutores é lenta”, afirma.

A norte-americana Micron anunciou investimento de US$ 24 bilhões, em dez anos, para ampliar a produção de wafers de silício em Cingapura, mas a nova capacidade só deve entrar em operação na segunda metade de 2028. Enquanto isso, contratos já foram renegociados no Brasil, com revisões que, segundo a Abinee, podem elevar em cerca de 30% os preços ao consumidor final.

Cadeia sob pressão

Rogério Nunes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi) e executivo da Zilia Technologies, destaca que o custo das memórias dobrou, passando a representar de 15% a 20% do valor total de um computador ou celular desde o fim de 2025. “Esse aumento será repassado ao mercado e pode reduzir a demanda”, diz.

Para Reinaldo Sakis, diretor de pesquisas da IDC na América Latina, o mercado brasileiro enfrenta ainda a volatilidade cambial, inflação e juros elevados. A troca de computadores adquiridos no auge da pandemia, esperada para este ano, pode ser adiada diante da alta de preços.

Estratégias das fabricantes

Diante do encarecimento, fabricantes optam por reduzir a quantidade de memória nos dispositivos, priorizando versões com 8 GB de RAM em vez de 16 GB. Segundo Nunes, o movimento pode gerar, mais adiante, uma retração na demanda por chips, mas, por ora, as empresas ampliam estoques para evitar novas pressões de custo.

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Imagem: Ricardo Lima ricardollk via valor.globo.com

O setor também se prepara para a demanda sazonal de TVs e celulares antes da Copa do Mundo de futebol, alerta Paulo Júnior, presidente da Adata no Brasil. “Nosso desafio é conseguir matéria-prima suficiente para atender ao consumo”, comenta.

Expansões no país

A indústria nacional acompanha o avanço da tecnologia HBM. A Zilia Technologies prevê investir R$ 1 bilhão até 2030 para ampliar sua capacidade produtiva, enquanto a Adata destinará R$ 400 milhões a pesquisa e desenvolvimento no mesmo período. A HT Micron, controlada pelo grupo sul-coreano Hana Micron, avalia iniciar produção de memórias HBM em 2028, dependendo das condições de mercado.

Apesar dos movimentos de expansão, a expectativa de executivos e associações é de que a oferta permaneça apertada pelo menos até 2027, mantendo pressão sobre preços de eletrônicos e exigindo ajustes nas configurações dos produtos vendidos no país.

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Com informações de Valor Econômico