O Federal Reserve manterá oito encontros anuais, porém uma dessas reuniões será dedicada exclusivamente à estratégia de longo prazo a partir de 2027, anunciou Kevin Warsh após a decisão de preservar a faixa dos juros entre 3,75 % e 4 % ao ano.
Novo formato reduz votações de juros e amplia debates estruturais
Em comunicado divulgado em 28 de outubro de 2026, Warsh detalhou que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) continuará agendando oito sessões anuais, mas pelo menos uma delas não incluirá deliberação sobre a taxa básica. Nesses encontros, não haverá a tradicional votação nem a divulgação do comunicado de política monetária. A proposta é reservar o espaço para examinar instrumentos, metas e métodos de atuação, separando a análise conjuntural das discussões estratégicas.
Para 2028, o presidente do banco central norte-americano antecipa expandir o modelo para duas reuniões dedicadas exclusivamente à estratégia, reduzindo a seis o número de deliberações regulares sobre juros. O calendário exato dessas sessões ainda não foi definido, mas o Fed mantém a prerrogativa de atuar fora das datas oficiais em situações extraordinárias, como ocorreu no início da pandemia.
Impacto sobre as chamadas “Super Quartas” Brasil-EUA
A reformulação pode alterar a coincidência histórica entre decisões do Fed e do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil, conhecidas no mercado como Super Quartas. Os calendários preliminares apontam cinco datas de sobreposição em 2027 — 27 de janeiro, 17 de março, 28 de abril, 27 de outubro e 8 de dezembro. Caso a reunião estratégica do Fed seja fixada em uma dessas datas, o dia continuará concentrando a decisão da Selic, porém sem a usual definição da taxa norte-americana.
O economista Omair Sharif, da Inflation Insights, considera outubro o mês mais provável para a primeira sessão estratégica, o que reduziria para quatro as Super Quartas de 2027. A avaliação, entretanto, não foi confirmada pelo banco central.
Alterações na comunicação e revisão de políticas sob a gestão Warsh
Desde que assumiu a presidência em 22 de maio de 2026, Warsh promoveu ajustes significativos na comunicação institucional. Os comunicados pós-reunião tornaram-se mais curtos, enquanto as entrevistas coletivas passaram a priorizar a apresentação de dados sobre projeções subjetivas. O dirigente também rejeita o forward guidance, prática de antecipar o possível caminho dos juros, e retirou sua própria estimativa do dot plot, mantendo as contribuições dos demais participantes.
Em Jackson Hole, durante agosto, Warsh defendeu um Fed menos prescritivo e mais focado na observação de tendências consolidadas. Segundo ele, a comunicação deve servir às decisões de política monetária, e não influenciar expectativas de forma prematura.

Grupos de trabalho examinam cinco áreas-chave da autoridade monetária
Paralelamente ao ajuste do calendário, o presidente instituiu cinco grupos de estudo para revisar processos internos. As frentes abrangem Comunicação, Balanço, Dados, Produtividade e Emprego e Inflação. Entre os nomes que lideram a área de comunicação estão Arminio Fraga, Peter Fisher e Mervyn King. Os painéis contam com assessores externos, apoio técnico do Fed e entregas previstas até o fim de 2026, embora Warsh admita possível extensão de prazo, sobretudo na revisão do balanço.
O grupo responsável pelo balanço investiga eventuais ajustes no regime de reservas abundantes e avalia alternativas que priorizem o uso dos juros de curto prazo como principal ferramenta. Recomendações preliminares poderão chegar ao Fomc no primeiro trimestre de 2027.
Trajetória recente dos juros e compromisso com a meta de inflação
Mesmo enquanto reorganiza processos, o Fed prosseguiu com ajustes graduais na taxa básica. Após manter o intervalo de 3,50 %-3,75 % em junho e julho, o comitê elevou os juros em 0,25 ponto percentual em setembro, alcançando o patamar atual de 3,75 %-4 %. A medida visa acelerar o retorno da inflação para a meta de 2 % ao ano, ancorada no Personal Consumption Expenditures (PCE).
Warsh reiterou que a estabilidade de preços continua sendo a principal função da autoridade monetária e que estímulos extraordinários devem permanecer restritos a contextos de crise. A agenda de reformas busca, segundo ele, fortalecer a capacidade do Fed de reagir a choques sem se afastar do mandato legal.
Conclusão Técnica
A partir de 2027, o Federal Reserve passará a segmentar parte de sua agenda para discussões de longo prazo, reduzindo o número de votações sobre juros e consolidando um modelo de comunicação mais enxuto. A iniciativa, aliada aos estudos sobre balanço, dados e produtividade, sinaliza um esforço coordenado para atualizar instrumentos e processos sem alterar a meta de inflação de 2 %. O calendário definitivo, incluindo a escolha da reunião estratégica, deverá ser divulgado nos próximos meses e poderá redefinir a frequência das Super Quartas entre Estados Unidos e Brasil. Até lá, o mercado acompanhará de perto as entregas dos grupos de trabalho e os efeitos práticos da nova abordagem sobre a condução da política monetária norte-americana.



