R$ 17 bilhões em operações simuladas entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) foram identificados pela Polícia Federal, que aponta produção maciça de documentos falsos, uso de empresa de fachada e pagamento de propina a ex-dirigente do banco estatal, resultando na prisão preventiva do ex-presidente Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa.
Estrutura da fraude e agentes centrais
A investigação federal descreve um esquema iniciado em 2024, quando o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, enfrentou crise aguda de liquidez. Para captar recursos imediatos, passou a negociar carteiras de crédito consignado fictícias com o BRB. A Tirreno Participações, constituída como veículo de emissão de ativos, repassava supostos créditos ao Master, que os revendia ao banco público do Distrito Federal.
Relatórios da Polícia Federal ressaltam que a diretoria do BRB aprovava as compras em ritmo acelerado, mesmo diante de pareceres que exigiam aval do conselho de administração. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, o volume transferido do BRB para operações sem lastro alcançou R$ 20 bilhões, valor superior ao capital regulatório da instituição à época.
Como contrapartida, Vorcaro teria pago R$ 146,5 milhões em propina, materializada na aquisição de seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília para o ex-presidente do BRB. A descoberta do patrimônio levou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a decretar a prisão do executivo durante a quarta fase da Operação Compliance Zero em abril de 2026.
Mecanismos tecnológicos empregados
Auditoria forense aponta que a equipe de TI do Banco Master utilizou scripts automatizados para gerar 2,7 mil procurações digitais e 1.785 Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) em lote. Os documentos foram criados a partir de CPFs extraídos de bases de dados antigas, como a da operadora de benefícios CredCesta, sem autorização dos titulares.
Para dar aparência de legitimidade, cláusulas contratuais falsas indicavam que os clientes haviam concedido poderes ao Master ou à Tirreno para firmar empréstimos em seus nomes. Esse procedimento, segundo a perícia, burlou sistemas de autenticação e mascarou a inexistência de lastro real para os créditos revendidos ao BRB.
A Polícia Federal reuniu conversas de um grupo no aplicativo WhatsApp denominado “Daniel e os leões”, onde advogados de Vorcaro trocavam arquivos editados das CCBs antes de submetê-los ao sistema interno do banco estatal.
Consequências financeiras e regulatórias
O impacto imediato para o BRB foi reconhecido como prejuízo bilionário ainda não totalmente quantificado. A Superintendência de Supervisão Baseada em Risco do Banco Central abriu processo administrativo para avaliar infrações a dispositivos de Basileia III relativos a capital mínimo e controles internos.
Além da possível aplicação de multa, o BRB pode ser obrigado a recompor capital, incluir provisões adicionais e apresentar plano de saneamento financeiro. Paralelamente, o Fundo Garantidor de Créditos monitora a exposição sistêmica, enquanto investidores em debêntures subordinadas do banco questionam o grau de subordinação frente a debilitação patrimonial decorrente das fraudes.
Para o Banco Master, a repercussão culminou na liquidação extrajudicial em 2025, após tentativa malsucedida de venda ao próprio BRB. Credores passaram a disputar prioridades de recebimento, já que parte relevante dos ativos listados era composta por créditos inexistentes.
Medidas corretivas adotadas pelo BRB
Em nota pública divulgada em 12 de setembro de 2026, o BRB afirma ser vítima de atos criminosos praticados por ex-dirigentes. A instituição comunicou a renovação completa da diretoria executiva, reforço nos controles de conformidade e contratação do escritório Machado Meyer com suporte técnico da Kroll para conduzir auditoria forense independente.
Dentre as ações de curto prazo, destacam-se: 1) revisão de todos os contratos de cessão de créditos vigentes; 2) implantação de três camadas adicionais de verificação documental; 3) segregação de função decisória para compras de ativos financeiros. O banco também formalizou cooperação com a Polícia Federal e com o Ministério Público Federal, fornecendo acesso irrestrito aos servidores de dados históricos.
Enquanto isso, o Tribunal de Contas do Distrito Federal avalia eventuais responsabilidades de conselheiros indicados pelo governo local, podendo aplicar sanções administrativas e inabilitar ex-gestores para exercício em cargos públicos.
Conclusão técnica
As investigações confirmam que a conjugação de fragilidades de governança no BRB e necessidade urgente de liquidez no Banco Master possibilitou fraudes superiores a R$ 17 bilhões. Com a quebra de sigilo dos autos, autoridades intensificam análise de fluxo financeiro, rastreamento de ativos imobiliários e validação de garantias nos balanços. Próximos passos incluem: definição do montante exato de provisões que o BRB deverá reconhecer, conclusão da auditoria independente até o primeiro trimestre de 2027 e julgamento de processos criminais contra ex-executivos nas instâncias federais. O desfecho tende a redefinir padrões de due diligence em aquisições de carteiras de crédito e elevar exigências regulatórias para bancos estatais regionais.



