O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reconheceu em 13 de maio de 2026 que o arcabouço tradicional de política monetária não foi concebido para lidar com a atual combinação de desaceleração econômica e pressões de preços provocada por sucessivos choques de oferta, configurando um cenário próximo à estagflação.
Choques de oferta sucessivos agravam o quadro inflacionário
Na conferência anual da autoridade monetária, Galípolo enumerou quatro choques de oferta em menos de seis anos, fenômeno que pressiona a inflação em escala global. Entre os vetores citados, destacam-se:
- Conflitos geopolíticos que desorganizam cadeias de suprimentos estratégicas, especialmente no Oriente Médio, elevando o preço do petróleo.
- Eventos climáticos extremos que afetam safras agrícolas e ampliam o custo de commodities alimentares.
- Encadeamento de gargalos logísticos pós-pandemia, ainda não plenamente normalizados.
- Realocação de investimentos industriais, provocada pela busca de maior segurança de fornecimento, com impacto sobre custos de transição.
De acordo com dados projetados por analistas consultados pelo BC, a elevação do barril de petróleo para a faixa de US$ 105–110 adiciona de 0,30 p.p. a 0,45 p.p. ao índice de preços internos ao longo de um ano. Já o encarecimento de insumos agrícolas, puxado por perdas em safras de grãos, contribui com até 0,20 p.p. adicionais no mesmo intervalo.
Estrutura clássica da política monetária mostra limitações
O presidente explicou que os bancos centrais foram historicamente desenhados para combater a inflação de demanda, na qual o excesso de liquidez pressiona preços. Nesse modelo, o aumento da taxa básica de juros reduz o consumo e, por consequência, alivia o termômetro inflacionário. Hoje, porém, o problema reside na escassez de oferta, fenômeno que não responde da mesma forma à elevação do custo do crédito.
Galípolo sintetizou o dilema afirmando que o “barco” da autoridade monetária foi projetado para uma “tempestade diferente”. A metáfora reflete desafios de calibração dos modelos econométricos utilizados para balizar o regime de metas de inflação. Conforme técnicos da instituição, cerca de 70 % das variáveis incorporadas aos modelos atuais tratam de fatores de demanda, enquanto menos de 30 % capturam choques de oferta – proporção que pode reduzir a eficácia das projeções em cenários adversos.
Nesse contexto, o Copom passou a atribuir maior peso a indicadores de inflação implícita, dados de expectativas de longo prazo e a métricas de preços ao produtor. A estratégia visa antecipar a propagação de choques setoriais para o índice cheio, ainda que isso signifique conviver, temporariamente, com variações acima do centro da meta.

Efeitos de segunda ordem e preservação da credibilidade
Para Galípolo, o maior risco imediato é a transformação de aumentos pontuais de preços – como combustíveis e alimentos – em efeitos de segunda ordem, quando a alta se difunde para salários, aluguéis e contratos de serviços. Estudos internos indicam que, se a inércia superar 0,7 na função de Phillips estimada, o desvio da inflação pode ultrapassar 1,5 p.p. em relação à meta em um horizonte de 12 meses.
O dirigente destacou três frentes de atuação:
- Comunicação preventiva: reforçar o compromisso com a estabilidade de preços em pronunciamentos públicos, reduzindo o espaço para indexação automática.
- Monitoramento de expectativas: utilizar pesquisas de mercado semanais e contratos de inflação negociados no mercado futuro para calibrar intervenções.
- Coordenação interinstitucional: articular-se com o Executivo e com órgãos reguladores para mitigar choques de oferta, a exemplo de estoques reguladores ou acordos temporários de importação.
Segundo o presidente, preservar a credibilidade é crucial para impedir que a percepção de perda de controle agrave a depreciação cambial e, por consequência, acelere ainda mais os preços internos.
Conclusão Técnica
O reconhecimento público de que a engrenagem tradicional da política monetária não é integralmente adequada a choques de oferta aponta para ajustes metodológicos e institucionais no Banco Central. A autarquia permanece empenhada em conter a inflação, mas dará maior ênfase a variáveis de oferta e a mensagens de ancoragem de expectativas. Nos próximos trimestres, o mercado deverá observar revisões nos modelos de projeção, reforço no diálogo com agentes produtivos e eventuais intervenções pontuais para amortecer pressões transitórias. Enquanto o quadro internacional mantiver conflitos e volatilidade climática, a autoridade monetária atuará em modo vigilante, calibrando a taxa básica sem perder de vista o objetivo estatutário de estabilidade de preços.



