Fundos de investimento ampliam posições em títulos públicos prefixados e indexados à inflação porque o mercado precifica que a trajetória fiscal brasileira não deve melhorar tão cedo, mantendo a curva de juros elevada e abrindo espaço para ganhos de capital caso ocorra qualquer ajuste nas contas públicas.
Cenário global instável pressiona expectativas de crescimento
Durante o Macro Day 2026, promovido pelo BTG Pactual, os gestores Fabiano Rios (Absolute Investimentos), Carlos Woelz (Kapitalo) e Rodrigo Carvalho (BTG Pactual Asset Management) alinharam diagnósticos convergentes sobre o ambiente econômico internacional. A combinação de inflação resiliente, juros elevados nas principais economias e crescimento modesto vem desafiando as premissas clássicas de correlação entre essas variáveis. Rios comparou o momento atual à fase de “exuberância irracional” dos anos 1990, citando a aparente desconexão entre atividade econômica e custo do dinheiro. A avaliação de que o mundo mudou mais rápido do que os modelos conseguiram capturar reforça a cautela com ativos de risco, especialmente em mercados emergentes.
Contas públicas brasileiras no centro da aversão a risco
No âmbito doméstico, o consenso entre os três gestores é de que o desequilíbrio fiscal sustenta a taxa básica de juros em patamar elevado, mesmo com sinais de desaceleração da atividade. A percepção predominante no mercado é de que as medidas de estímulo creditício, antes capazes de compensar o aperto monetário, perderam eficácia em 2026. Segundo Woelz, a continuidade do atual governo sem cortes significativos de gastos dificultaria qualquer queda consistente da Selic. Já Carvalho enxerga “chances razoáveis” de um ajuste a partir de 2027, condicionado a reformas focadas em contenção de despesas. Enquanto essa definição política não ocorre, as projeções de cortes de juros permanecem tímidas, gerando o que Rios classifica como “mercado estacionado”, disposto a pagar para manter posições que apostam em nenhuma melhora substancial.
Estrategistas veem assimetria favorável em títulos prefixados e atrelados ao IPCA
A principal consequência prática desse diagnóstico é o direcionamento de fluxos para a renda fixa soberana. Rios destaca que papéis prefixados com vencimento em 2029, negociados a 14,13 % ao ano, incorporam expectativas muito modestas de redução da Selic. Caso um ajuste fiscal, ainda que limitado, force a autoridade monetária a cortar juros antes do previsto, esses títulos tendem a registrar valorização expressiva. A mesma lógica vale para NTN-Bs, cujo cupom real elevado oferece proteção contra inflação e possibilidade de ganho adicional se a parte longa da curva recuar.
Carvalho acrescenta que a assimetria risco-retorno favorece posições sensíveis à curva de juros porque qualquer “susto positivo” — como aprovação de medidas de controle de gasto ou melhora na arrecadação — tem potencial de amplificar retornos. Já Woelz prefere postura defensiva, alegando que o ciclo de crédito público se esgotou e que ausência de disciplina fiscal prolongará taxas elevadas. Mesmo assim, o gestor reconhece que carregar caixa em títulos de curto prazo garante rendimento real alto com volatilidade reduzida.
Bolsa segue em segundo plano; dólar aparece como proteção tática
Apesar do ceticismo em relação ao Ibovespa, os gestores não abandonaram totalmente o mercado acionário. A Absolute concentra apostas em exportadoras e companhias beneficiadas por eventual queda dos juros reais no médio prazo, reduzindo exposição a setores dependentes do ciclo doméstico. O BTG Pactual adota abordagem semelhante e observa que, mesmo em ano eleitoral, a volatilidade implícita da bolsa está abaixo da média histórica, sinalizando postura cautelosa dos investidores.
No câmbio, a asset do banco mantém posição comprada em dólar como instrumento de hedge contra choque externo ou agravamento do quadro fiscal interno. A combinação de termômetro eleitoral acirrado com desequilíbrio das contas públicas reforça a visão de que a moeda norte-americana continuará servindo como “porto seguro” de curto prazo.
Conclusão Técnica
Os gestores veem a renda fixa soberana como principal veículo de geração de alfa no cenário atual, sustentados pela precificação de juros altos por mais tempo. A estratégia repousa na expectativa de que mesmo um ajuste fiscal modesto, a partir de 2027, seja suficiente para derrubar a parte curta da curva e reprecificar títulos prefixados e indexados ao IPCA. Enquanto isso, o mercado acionário permanece restrito a nichos defensivos, e o dólar ocupa função de proteção. O desfecho dessa tese dependerá da capacidade do próximo governo — ou da continuidade do atual — em apresentar medidas críveis de contenção de gastos e ancoragem das expectativas de dívida pública.



