Investidores intensificaram a rotação de portfólio durante o rali eleitoral, priorizando bancos digitais, plataformas de investimento e companhias de mercado de capitais, enquanto Bradesco (BBDC4) registrou a menor variação entre os grandes bancos, com alta de apenas 8% na B3 na semana que levou o Ibovespa a avançar 14% em dólares. O movimento ganhou força após o desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e deve seguir até o segundo turno de 25 de outubro, apontou relatório do BTG Pactual, que mapeou conversas com gestores locais e estrangeiros.
Desempenho assimétrico no setor financeiro
O rali eleitoral elevou o índice financeiro da bolsa brasileira em 22% na semana, mas os ganhos foram distribuídos de forma heterogênea. Bancos digitais saltaram 37%, impulsionados pela expectativa de juros mais baixos e apetite por ativos de crescimento. Companhias de mercado de capitais, como corretoras e gestoras listadas, avançaram 36%, enquanto empresas de meios de pagamento subiram 27%.
Na outra ponta, bancos tradicionais cresceram 15%, evidenciando uma performance inferior à dos pares tecnológicos. Entre os seguradores, a valorização ficou restrita a 8%. O contraste, segundo o BTG, reflete a percepção de que as instituições incumbentes possuem espaço limitado para revisões positivas de lucro em 2027, ao passo que fintechs e assets podem capturar ganhos operacionais mais rapidamente caso o cenário de reformas se materialize.
Preferências dos gestores no curto e médio prazo
O levantamento indicou que uma possível vitória de Flávio Bolsonaro alimenta apostas em uma agenda econômica pró-mercado, sustentada por reformas estruturais, corte da Selic e fortalecimento cambial. Nessa hipótese, a reprecificação dos ativos financeiros poderia inaugurar um ciclo mais longo de valorização. Entre as ações citadas como “core holdings”:
- XP (XPBR31) lidera as recomendações, alavancada por ganho de participação em corretagem e gestão de patrimônio.
- B3 (B3SA3) surge em segundo plano, mas ainda beneficiada por aumento de volumes, derivado da entrada de capital estrangeiro.
- BTG Pactual (BPAC11) permanece presente em boa parte dos portfólios, embora o múltiplo de 3,6x valor patrimonial gere questionamentos sobre potencial adicional de alta.
- Entre fintechs, Nubank (ROXO34) recuperou interesse após reduzir o prêmio de valuation, enquanto Inter (INBR34) ganhou espaço entre as empresas de média capitalização.
No segmento de pagamentos, Stone e PagSeguro podem capturar benefícios da queda nas despesas financeiras, ainda que a competitividade do setor permaneça como principal risco mapeado pelos analistas consultados.
Por que o Bradesco ficou para trás
Apesar de integrar o grupo dos quatro maiores bancos comerciais do país, o Bradesco teve ganho semanal de apenas 8%, número que chama atenção quando comparado ao avanço médio de 15% dos congêneres. Investidores demonstraram ceticismo em relação a três fatores principais:

- Crescimento modesto de crédito: as carteiras corporativas seguem pressionadas, e a alocação em varejo exibe ritmo inferior ao de concorrentes como Itaú Unibanco (ITUB4).
- Margem financeira sob pressão: a desaceleração do ciclo de alta de juros reduz a captura de retornos sobre títulos indexados ao CDI.
- Qualidade dos ativos: indicadores de inadimplência seguem acima dos pares, limitando espaço para revisões de lucro.
Além disso, o banco não figura entre as primeiras escolhas quando o tema é transformação digital. Embora tenha robusta rede de agências e forte presença em seguros, o posicionamento competitivo ainda é visto como menos ágil frente ao avanço de rivais nativos digitais. O próprio BTG observa que, enquanto o Itaú se beneficia de maior rentabilidade e delivery de lucros, o Bradesco enfrenta desafio duplo: recuperar eficiência operacional e reconquistar confiança do buy side.
Cenário macroeconômico e sensibilidade do mercado
Analistas ressaltam que a atual “lua de mel” entre mercado e eventual novo governo pode ser passageira caso a agenda de reformas não avance no Congresso. Embora todos os entrevistados pelo BTG descartem pessimismo estrutural, há divergências sobre o quanto do otimismo já foi precificado. Caso medidas fiscais ou tributárias travem, a correção pode afetar principalmente ativos que mais se valorizaram, como fintechs.
Por outro lado, a convergência de Selic em trajetória de queda, PIB em aceleração moderada e câmbio apreciado criaria ambiente favorável à retomada de emissões e fortalecimento do mercado de capitais. Em tal contexto, ações de empresas intensivas em captação – inclusive o próprio Bradesco – poderiam retomar protagonismo, desde que apresentem estratégias críveis de eficiência e digitalização.
Conclusão técnica
Os dados reunidos pelo BTG confirmam que o rali eleitoral redistribuiu a preferência dos investidores em favor de instituições com maior alavancagem operacional ao ciclo de reformas e corte de juros. Bancos digitais, assets e plataformas de investimento capturaram valorização acima da média, enquanto o Bradesco ficou relegado à base da lista, penalizado por dúvidas sobre rentabilidade e agilidade estratégica. A continuidade do fluxo positivo ao setor financeiro dependerá da validação de um cenário macro mais benigno após o segundo turno. Em caso de materialização, gestoras tendem a reavaliar posições, o que pode redefinir o espaço competitivo entre incumbentes tradicionais e novos entrantes até 2027.



