Investir sem previsões: lições de Howard Marks e os US$ 223 bilhões sob gestão da Oaktree

“Você não consegue prever; você consegue se preparar.” A máxima do bilionário Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, sintetiza a filosofia que guia a gestora responsável por administrar aproximadamente US$ 223 bilhões em ativos. A frase, reafirmada nesta semana, reforça a necessidade de construção de portfólios resilientes em um cenário econômico definido pela incerteza estrutural.

Contexto do pronunciamento e retrato da Oaktree Capital

A Oaktree Capital Management, fundada em 1995 por Howard Marks e Bruce Karsh, consolidou-se como referência global em investimentos alternativos. O foco da casa recai sobre estratégias em títulos de crédito distressed, private equity e ativos imobiliários. Ao enfatizar a impossibilidade de previsões exatas, Marks responde a um mercado que, mesmo amparado por modelos quantitativos avançados, testemunhou choques como:

  • A crise financeira de 2008, quando o índice S&P 500 retraiu 38,5% no ano;
  • A volatilidade recorde de março de 2020, período em que o VIX ultrapassou 80 pontos;
  • A rápida inversão na curva de juros norte-americana observada em 2022, que reprecificou ativos globais.

Estes episódios sustentam a tese de Marks: previsões pontuais falham diante de fatores políticos, sanitários e geopolíticos que excedem qualquer modelo estatístico.

Preparação como pilar: gestão de risco e horizonte de longo prazo

No lugar do prognóstico certeiro, Marks defende três alicerces de preparação:

  1. Diversificação multissetorial e multimoeda: a Oaktree distribui capital entre crédito corporativo, infraestrutura, imóveis e commodities, mitigando risco idiossincrático dos ativos.
  2. Liquidez administrada: parte relevante das posições permanece em veículos com prazo de resgate inferior a 90 dias, viabilizando ajustes rápidos quando surgem assimetrias de preço.
  3. Disciplina contracíclica: a gestora historicamente amplia posições quando índices de volatilidade sobem e múltiplos recuam, movimento que requer capital disponível e ausência de alavancagem excessiva.

Esse tripé converge para a recomendação recorrente de Marks: priorizar o controle de risco absoluto, em detrimento de tentativas de “acertar o topo ou o fundo” do ciclo.

Repercussões para investidores brasileiros e internacionais

O alerta do gestor ganha relevância adicional à medida que as curvas de juros globais seguem voláteis. No Brasil, o CDI superior a 10% ao ano, aliado à depreciação cíclica do real, pressiona alocações em renda variável. Para fundos de pensão, a pulverização em classes descorrelacionadas — como private credit norte-americano ou infraestrutura verde — atende à lógica de preparação, reduzindo o impacto de choques domésticos.

Entre investidores pessoas físicas, a recomendação de Marks traduz-se em práticas como:

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  • Manter reserva de emergência com liquidez diária;
  • Equilibrar bolsa, renda fixa indexada à inflação e ativos externos para diluir volatilidade;
  • Rebalancear carteiras periodicamente, evitando concentrações ocasionais.

Ao privilegiar estratégias defensivas, o investidor cria capacidade de aproveitar valuations descontados sem recorrer a previsões de curto prazo.

Métricas que justificam a abordagem conservadora

Levantamento recente da Bank for International Settlements mostra que, no período de 2000 a 2025, apenas 8% dos economistas acertaram simultaneamente as projeções de PIB e inflação para o ano subsequente em economias avançadas. No mercado acionário, estudo da Dalbar aponta que o investidor de varejo norte-americano obteve retorno anualizado de 6,8% entre 1992 e 2022, contra 9,6% do S&P 500, diferença atribuída principalmente ao timing equivocado nas entradas e saídas.

Essas estatísticas endossam o pensamento de Marks: erros de previsão derivam em perda de performance superior à que seria observada em uma carteira robusta, mantida ao longo de ciclos econômicos completos.

Conclusão técnica

A declaração de Howard Marks reitera a primazia da preparação sobre a previsão em ambientes caracterizados por choques exógenos e modelagem limitada. Dados históricos comprovam a baixa acurácia de estimativas macroeconômicas e a penalização financeira àqueles que buscam antecipar movimentos de curto prazo. Diante disso, a recomendação objetiva para gestores e investidores consiste em fortalecer mecanismos de gestão de risco, diversificação estrutural e liquidez estratégica. Esse arcabouço viabiliza não apenas a proteção do capital, mas também a captura de oportunidades que emergem durante fases de estresse, mantendo coerência com o racional defendido pelo cofundador da Oaktree Capital Management.