Itaú BBA revisou nesta terça-feira, 28 de outubro de 2026, a recomendação das ações BBDC4 de compra para neutra, cortou o preço-alvo de R$ 22 para R$ 20 e desencadeou uma queda intradiária de 6,10 %, a R$ 14,77, por volta das 16h37. O banco de investimentos justifica a mudança pela expectativa de juros mais altos, menor crescimento econômico e elevação do risco de crédito em 2027, fatores que podem afetar o desempenho do Bradesco com mais intensidade do que seus pares.
Corte de recomendação e impacto imediato nas ações
O relatório divulgado pelo Itaú BBA alterou o status do Bradesco de banco preferido para posição neutra, movimento que refletiu rapidamente nos negócios de BBDC4. O papel, que já mostrava volatilidade após a divulgação do resultado do terceiro trimestre, aprofundou perdas e encerrou a sessão em queda expressiva. A mudança ocorre menos de uma semana após o Bradesco reportar lucro líquido de R$ 7,1 bilhões, alta de 14 % no comparativo anual, mas acompanhada por elevação na inadimplência acima de 90 dias para 4,6 %.
Fatores macroeconômicos pressionam projeções para 2027
No entendimento dos analistas, o cenário para 2027 combina atividade econômica mais fraca, consumo afetado por endividamento elevado das famílias e custo do dinheiro persistentemente alto. Esse ambiente deve restringir a concessão de crédito e comprometer a capacidade de pagamento dos tomadores, aumentando a probabilidade de provisões maiores. O relatório destaca que, embora todo o setor seja impactado, o Bradesco tende a sentir a pressão de forma mais aguda devido ao perfil de sua carteira, com maior exposição a retail banking e pequenas empresas.
Indicadores de risco revisados para cima
O Itaú BBA elevou as projeções para os principais indicadores de qualidade de ativos do Bradesco. A estimativa para inadimplência superior a 90 dias passou de 4,2 % para 4,9 % ao fim de 2027. Já o custo de risco projetado subiu de 3,33 % para 3,87 %. Consequentemente, as despesas com provisões devem alcançar R$ 47,1 bilhões, um salto de 16 % frente ao cálculo anterior.
Os analistas reconhecem esforços do banco em originar crédito de forma mais criteriosa, porém observam que os benefícios dessa postura só se consolidam ao longo de vários trimestres. Além disso, atrasos na recuperação de garantias ligadas aos programas FGI e FGO, citados pela instituição, podem prolongar a pressão sobre a cobertura de inadimplência.

Receita de juros em desaceleração e efeitos sobre o lucro
Com a expectativa de demanda menor por financiamentos e margens comprimidas, o Itaú BBA reduziu pela metade o crescimento estimado para a Net Interest Income (NII) com clientes em 2027, de 12 % para 6 %. Mesmo assim, manteve praticamente inalterada a perspectiva de lucro líquido em R$ 28 bilhões para 2026 e R$ 28,5 bilhões para 2027, estimando retorno sobre patrimônio (ROE) de 14,4 %. Segundo o relatório, a estabilidade do lucro decorre de ganhos não recorrentes já contabilizados e de cortes simultâneos em despesas administrativas, mas não elimina o risco de revisões futuras se a inadimplência superar as novas projeções.
Linhas de negócio que sustentam a operação
No terceiro trimestre, segmentos específicos mostraram desempenho positivo: o crédito automotivo avançou 27 % na base anual e 6 % ante o trimestre anterior, enquanto o crédito a grandes empresas cresceu 14,8 % em doze meses. O Bradesco atribui a evolução a políticas de garantia mais robustas e a parcerias estratégicas. Contudo, o Itaú BBA pondera que taxas de juros elevadas podem reduzir gradualmente a originação nessas frentes, limitando a contribuição para o resultado consolidado.
Conclusão técnica
O rebaixamento do Itaú BBA insere o Bradesco em rota de desempenho mais cautelosa, ancorada em um quadro macroeconômico que combina juros altos, endividamento crescente e maior risco de crédito. As atualizações de inadimplência, provisões e NII sugerem que a recuperação do banco será mais lenta do que o mercado estimava no início do ano. Monitoramentos trimestrais de qualidade de carteira, evolução das provisões e intensidade de crescimento nos segmentos automotivo e corporativo indicarão se o Bradesco conseguirá preservar o ROE projetado de 14,4 % ou se novas revisões de estimativas serão necessárias conforme 2027 se aproxima.



