A divulgação do balanço do Santander Brasil referente ao terceiro trimestre de 2026 (3T26) ocorre sob projeção de lucro líquido de R$ 3,161 bilhões — retração de 21% em relação a igual período de 2025 — e retorno sobre patrimônio líquido (ROE) estimado em 12,7%, sinalizando que a esperada recuperação ficará, segundo a própria administração, apenas para o início de 2027.
Pressão sobre resultado: provisões elevadas e margens comprimidas
O consenso de mercado compilado pela Bloomberg atribui a principal fonte de pressão à manutenção de provisões robustas para perdas com crédito. No trimestre anterior, o diretor financeiro do banco, Carlos Muñiz, confirmou que o custo de risco permaneceria elevado, deslocando a inflexão na rentabilidade “mais para o começo de 2027 do que para o fim de 2026”.
Em consonância, relatórios de Citi e Goldman Sachs projetam margens financeiras ainda restritas. O Citi prevê receitas de juros menores devido à migração para linhas com menor spread, enquanto o Goldman Sachs sustenta que o custo de risco elevado continuará limitando a expansão do resultado operacional.
A carteira de crédito total deverá crescer, mas em ritmo inferior ao observado antes do ciclo de alta das provisões. Segundo estimativas do mercado, a variação trimestral da carteira ficará concentrada em produtos com garantia real, como crédito imobiliário, Pronampe e financiamento de veículos novos, além de linhas destinadas ao segmento de alta renda (Select), que apresentam menor índice de inadimplência.
Qualidade de ativos segue no radar: cartões, PMEs e agronegócio
Os especialistas seguem atentos às carteiras de cartões de crédito para consumidores de renda mais baixa, pequenas e médias empresas (PMEs) e agronegócio. Esses segmentos registraram aumento de atrasos acima de 90 dias, exigindo reforço nas provisões e impactando o índice de cobertura.
Itaú BBA avalia que, mesmo com a estratégia de reduzir a exposição a operações de maior risco, a inadimplência ainda não mostrou melhora consistente. A instituição projeta que o índice de cobertura de provisões permaneça acima de 200%, enquanto o custo do crédito deve rondar 4,5% da carteira, nível considerado elevado para patamares históricos do banco.
Por outro lado, a XP Investimentos destaca que a menor participação de empréstimos sem garantia e o avanço de linhas colateralizadas devem gradualmente suavizar a pressão de inadimplência. A casa, entretanto, mantém expectativa de nova contração da margem financeira bruta, uma vez que produtos menos arriscados entregam spreads mais baixos.
Receitas de serviços, despesas e benefícios fiscais oferecem alívio parcial
A receita de serviços e tarifas tende a mitigar parte da retração no resultado financeiro. O desempenho de cartões — impulsionado pelo aumento do volume transacionado e pela penetração de seguros associados — deve sustentar crescimento de dois dígitos nessa linha.

Em despesas, o banco mantém foco em eficiência. Projeções apontam elevação moderada das despesas administrativas, abaixo da inflação acumulada em 12 meses. Além disso, os benefícios fiscais provenientes de juros sobre capital próprio e do carregamento de títulos isentos (LIGs e CRIs) devem adicionar entre 50 e 70 pontos-base ao ROE, embora em intensidade levemente menor do que a registrada no 2T26.
Somados, esses fatores devem limitar a queda do lucro líquido contábil, porém ainda insuficientes para reverter a trajetória descendente observada desde o pico pré-pandemia.
OPA da matriz espanhola: impacto potencial na base acionária
Além dos resultados, o mercado acompanha a oferta pública de aquisição de ações (OPA) anunciada pelo grupo Santander Espanha. A proposta prevê a troca de participação minoritária na filial brasileira por Brazilian Depositary Receipts (BDRs) do conglomerado global, sem desembolso em dinheiro.
A relação apresentada é de 0,4056 BDR para cada unit SANB11 ou ADS, e de 0,2028 BDR para cada ação SANB3 ou SANB4. Quando anunciada, a conversão embutia prêmio de 15% sobre as cotações locais. Se integralmente aceita, a movimentação pode alcançar € 1,908 bilhão (aprox. R$ 11,5 bilhões).
A operação aguarda análise da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da SEC, com conclusão estimada para o primeiro semestre de 2027. Não há previsão de fechamento de capital da subsidiária, mas a liquidez dos papéis na B3 poderá diminuir caso a adesão seja elevada.
Conclusão técnica
As projeções para o 3T26 indicam que o Santander Brasil ainda enfrenta um ciclo de provisões robustas e margens comprimidas, refletindo cenário de inadimplência persistente em segmentos de maior risco. Embora a migração para carteiras com garantia reduza gradualmente o custo de crédito, a materialização de uma recuperação consistente no lucro e no ROE deve ocorrer apenas a partir de 2027, conforme sinalizado pela administração. Até lá, o desempenho trimestral seguirá condicionado ao equilíbrio entre controle de despesas, geração de receitas de serviços e ritmo de normalização da qualidade de ativos, enquanto a OPA da matriz espanhola permanece como variável adicional com potencial de alterar a composição acionária sem afetar, neste momento, a operação corrente do banco.



