Empresas listadas no S&P 500 devem registrar um avanço de 31,4% no lucro por ação (LPA) no terceiro trimestre de 2026, superando a estimativa média do mercado de 29,2%, de acordo com cálculos da XP Research. O ganho concentrado em energia e tecnologia — setores alavancados por petróleo caro e investimentos em inteligência artificial — eleva a projeção para US$ 91 por ação no período, 1,6% acima do consenso.
Revisões de resultados quebram o padrão histórico
Tradicionalmente, as perspectivas de lucro das companhias norte-americanas são reduzidas conforme o trimestre avança, criando margem para surpresas positivas na divulgação dos balanços. Entretanto, entre o fim de 2025 e outubro de 2026, a curva inverteu. O LPA esperado para o S&P 500 subiu de US$ 80 para US$ 89,55 antes mesmo da publicação dos números, impulsionado por:
- Demanda firme por semicondutores e memória voltados a aplicações de machine learning;
- Margens operacionais próximas de máximas históricas em várias indústrias;
- Escalada dos preços do petróleo Brent, que ultrapassou US$ 100 por barril.
Apesar da elevação, a XP Research projeta um nível ainda maior, de US$ 91 por ação. A diferença, porém, reduz o espaço para novas surpresas e aumenta o risco de frustração do investidor caso as companhias não apresentem perspectivas de crescimento compatíveis com avaliações já exigentes.
Energia e tecnologia puxam a alta dos lucros
O setor de energia deve liderar a expansão, com salto de 114% no LPA e aumento de 21,4% na receita. O movimento reflete o repasse dos preços elevados do petróleo e o controle de custos operacionais. Na sequência, o segmento de tecnologia exibe expectativa de incremento de 65% no lucro e de 40,5% na receita, sustentado por vendas robustas de infraestruturas para computação avançada.
Outros destaques setoriais incluem comunicações, com crescimento projetado de 51,5% no LPA, e saúde, que deve avançar 5,5%. Em contraste, finanças, consumo discricionário e bens de consumo caminham para expansões modestas, entre 2,9% e 3,2% no lucro por ação.
A diferença entre a receita agregada — prevista para subir 12,3% — e o lucro, estimado em quase o triplo desse ritmo, revela a relevância da alavancagem operacional. Margens elevadas explicam por que a exclusão de energia e tecnologia reduziria o crescimento total de lucros para apenas 5,6%, segundo a XP.
Ambiente macro pressiona avaliações e amplia dispersão
No mesmo trimestre, fatores macroeconômicos adicionam complexidade ao cenário. O yield do Treasury de dez anos alcançou 5,3%, refletindo juros reais mais altos e prêmio de prazo ampliado. A primeira elevação da taxa básica pelo Federal Reserve em mais de três anos reforça o aperto financeiro, pressionando múltiplos de empresas com fluxos de caixa distantes.

A combinação de petróleo valorizado e juros longos elevados resultou em desempenho desigual dos principais índices:
- S&P 500 (ponderação tradicional): +2% no trimestre;
- S&P 500 equal weight: –2,3%;
- Russell 2000: –7,5%;
- Setor de energia: +16,5%;
- Setor de serviços públicos: –13%.
Adicionalmente, 60% das companhias do índice negociam mais de 20% abaixo de seus picos históricos, indicando que a trajetória ascendente do indicador é sustentada por um grupo restrito de papéis — especialmente aqueles ligados a petróleo, semicondutores e computação de alta performance.
Indicadores internos sugerem concentração de otimismo
Entre agosto e início de outubro, o total de empresas com estimativas de lucro revisadas para cima caiu para cerca de 190, enquanto aumentou o número de companhias cujas projeções permaneceram estáveis. Esse movimento reforça a percepção de que o entusiasmo do mercado está concentrado em poucos nomes, sobretudo nas chamadas big techs — Nvidia, Amazon, Microsoft, Alphabet, Apple, Tesla e Meta. Juntas, essas companhias devem responder por 27% do crescimento do lucro por ação do S&P 500 no trimestre.
Para avaliar a sustentabilidade desse avanço, analistas recomendam monitorar métricas como capex, retorno sobre o capital investido (ROIC) e fluxo de caixa livre. No segmento de memória e semicondutores, onde as ações recuaram 7,1% apesar das revisões positivas de lucro, a atenção se volta para eventual excesso de oferta e para o ritmo dos desembolsos em infraestrutura de computação avançada.
Conclusão técnica
A temporada de balanços do terceiro trimestre de 2026 deve confirmar um crescimento expressivo de lucros no S&P 500, ancorado em energia e tecnologia. Entretanto, revisões altistas já incorporadas às estimativas, a escalada dos rendimentos dos títulos públicos e a dispersão do desempenho setorial impõem cautela. A capacidade das empresas de sustentar margens recordes, converter investimentos em inteligência artificial em geração de caixa e lidar com custos crescentes de capital será determinante para validar — ou não — as atuais avaliações do mercado nos trimestres subsequentes.



