O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o Brasil firmará parcerias apenas com nações dispostas a compartilhar tecnologia e alertou que o custo de não investir em infraestrutura, inovação e pesquisa pode manter o País distante do grupo de economias avançadas.
Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde reforça ambição competitiva
Durante a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz, no Rio de Janeiro, Lula destacou que a instalação eleva a capacidade científica nacional em áreas estratégicas. Criado para acelerar pesquisas em vacinas, biofármacos e diagnósticos, o CDTS amplia o parque tecnológico da instituição e concentra laboratórios capazes de realizar testes de última geração.
Segundo o discurso presidencial, o empreendimento recebeu investimento de R$ 350 milhões ao longo de quatro anos, originados do orçamento federal e de emendas parlamentares. A nova estrutura reúne mais de 400 pesquisadores e projeta dobrar a produção de protótipos até 2028, posicionando o Brasil entre os países com maior pipeline de soluções em saúde para mercados emergentes.
Ao enaltecer o centro, Lula afirmou que o País “não é menos competitivo do que ninguém” e que a diferença reside no grau de ousadia para transformar pesquisa em produto. Ele citou exemplos das nações que ascenderam ao status de desenvolvidas após ampliarem o investimento em ciência e inovação acima de 3 % do PIB.
Política externa orientada por transferência de tecnologia
Lula reiterou a diretriz de neutralidade comercial, afirmando que “não temos preferência por nenhum país”, desde que o parceiro aceite cláusulas de coprodução, capacitação técnica e cessão de know-how. A mensagem, segundo o Palácio do Planalto, já foi transmitida ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em reunião realizada em maio de 2026 em Washington.
Nesse encontro, a delegação brasileira apresentou lista de projetos elegíveis a acordos de joint ventures envolvendo terras raras, semicondutores e cadeias farmacêuticas. De acordo com o Itamaraty, a Casa Branca sinalizou interesse em cooperação no segmento de insumos críticos para a transição energética, mas a negociação esbarra na exigência brasileira de estabelecer unidades fabris no País com porcentual mínimo de 40 % de conteúdo local.
Além dos Estados Unidos, o governo monitora oportunidades de transferência de tecnologia com União Europeia, Japão, Índia e Coreia do Sul. A estratégia segue o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) — revisado em 2025 — que projeta captação de US$ 120 bilhões em investimentos estrangeiros produtivos até 2030.

O debate sobre o “custo de não fazer”
Lula criticou a visão estritamente fiscal que, em sua avaliação, restringe projetos transformadores. “As pessoas nunca param para se perguntar quanto custa não fazer”, declarou. Conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cada R$ 1 gasto em infraestrutura gera retorno de R$ 1,70 em crescimento adicional do PIB no prazo de cinco anos.
O presidente citou gargalos logísticos como ferrovias inacabadas e a necessidade de modernizar 57 mil quilômetros de rodovias federais. Defendeu ainda a criação de um fundo soberano voltado a transporte, energia limpa e digitalização industrial, com aporte inicial de R$ 50 bilhões, articulado entre Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e recursos do pré-sal.
Em resposta às preocupações da Fazenda, Lula argumentou que o controle de despesas deve ser equilibrado com a visão de longo prazo. Ele citou países da OCDE que mantêm dívida pública superior à brasileira, porém sustentam níveis robustos de investimento público em pesquisa e infraestrutura.
Conclusão Técnica
As declarações de Lula sinalizam um reposicionamento da política industrial e tecnológica brasileira baseado em parcerias condicionadas à transferência de conhecimento e na ampliação do gasto em infraestrutura de alto impacto. A inauguração do CDTS exemplifica a aposta governamental em gerar massa crítica de pesquisa nacional enquanto busca cooperação estrangeira de equivalência tecnológica. Nos próximos trimestres, o Ministério da Indústria e Comércio Exterior deve publicar editais de joint ventures priorizando cadeias de valor estratégicas e definir métricas para aferir o retorno socioeconômico dos investimentos anunciados. A atenção do mercado permanece voltada à capacidade de execução orçamentária e às negociações diplomáticas que definirão o real alcance da política de transferência de tecnologia.



